A Lusitânia e a Galécia. Jorge de Alarcão. Parte 007

A Lusitânia e a Galécia. Jorge de Alarcão. Parte 007

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CAPÍTULO 2. A CONQUISTA ROMANA.
2. O PRIMEIRO COMBATE DOS ROMANOS CONTRA OS LUSITANOS
O primeiro recontro de romanos e lusitanos deu-se em Ilipa em 194 a. C. As tropas romanas, comandadas por Publius Cornelius Scipio Nasica, obtiveram vitória.
Os romanos tinham já então dividido a Hispânia em duas províncias, cada uma com seu comando ou seu governador: a Citerior, dos Pirenéus até à região de Castulo, e a Ulterior, daqui para ocidente.
Lívio, 35, 1, diz que os lusitanos, tendo devastado a Ulterior, regressavam com o produto do saque e muitas cabeças de gado. O historiador usa o termo domum, que, traduzido à letra, significaria “a casa”. Poderíamos também entender “ao seu país de origem”. Não é seguro, porém, que deva ser este o entendimento. Regressariam os lusitanos, em marcha necessariamente lenta por causa dos gados, às suas terras que definimos no mapa da nossa Fig. 2? Ou regressariam a qualquer base de operações que teriam na Turdetânia?
A situação desta área era então muito instável. Os romanos já a tinham ocupado, mas a ocupação não podia dar-se por segura. Segundo Lívio, 31, 21, 6, os povos do Guadalquivir e da Betúria sublevaram-se contra os romanos em 197 a. C. Entre os que então se revoltaram estavam Culchas e Luxinius. O primeiro, que parece ter governado entre 201 e 194 a. C., chegou a dominar 28 oppida (isto é, aglomerados urbanos que, possivelmente, não seriam grandes) (Lívio, 28, 13) e a dispor de um exército de 3000 peões e 50 cavaleiros (o que corresponde a cerca de metade de uma legião romana). Tendo-se inicialmente posto do lado dos romanos contra os cartagineses, revoltou-se depois contra aqueles. Luxinius era príncipe de Carmo (actual Carmona) e de Bardo.
É muito possível que os lusitanos, em 197 a. C. – assim como posteriormente —, viessem à Turdetânia como mercenários contratados pelas cidades indígenas e não, como se tem sustentado, para saquearem cidades e campos. Seriam contratados pelas cidades que se revoltavam contra os romanos, ou que pretendiam ter tropas para desmotivarem arbitrariedades dos conquistadores. Temos de pensar ainda que, num clima de instabilidade político-militar, as cidades (ou os pequenos reinos) indígenas podiam atacar-se umas às outras.
Latrones é o nome que os autores latinos frequentemente usaram para falar dos lusitanos (reportando-se ao período das guerras do séc. II a. C.). Ora, se daquele nome derivou o nosso de “ladrões”, não é menos verdade que o termo latino também significa “mercenários”. No De Bello Hispaniense, 1, 4, também se dá o nome de latrones às tropas de Cnaeus Pompeius que se opunham às de Júlio César.
Ainda na Turdetânia, os lusitanos foram derrotados por Fulvius Nobilior em 193 a. C. Em 191 ou 190, Lucius Aemilius Paullus foi vencido pelos lusitanos em Lycon (Ilurco, Pinos Puente, perto de Granada? Fig. 16); mas depois derrotou-os em Hasta (ou Asta), que corresponde a Jerez de la Frontera, a norte de Cádis. A cidade deve ter sido recuperada pelos lusitanos, visto que o mesmo Lucius Aemilius Paullus voltou a atacá-la em 187 a. C.— e neste combate perdeu a vida.
A perda de Hasta pelos lusitanos, sua reconquista e nova perda é mais facilmente entendível se admitirmos que os lusitanos tinham na cidade uma base de operações ou estavam sediados nela como mercenários.
As notícias dos autores antigos não esclarecem se os lusitanos na Turdetânia tinham um comando único ou se se repartiam por vários grupos, cada um com sua chefia.
Em 185-184 a. C., os romanos, comandados por C. Calpurnius e L. Quinctius, partindo da Betúria, avançaram até ao Guadiana e ao médio Tejo e travaram combates em Dipo, Toletum e outros lugares.
Lívio, 39, 30, não refere neste passo os lusitanos; mas em 39, 42 alude à cerimónia triunfal com que aqueles dois pretores foram recebidos em Roma por terem vencido os lusitanos.

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