A Lusitânia e a Galécia. Jorge de Alarcão. Parte 006

A Lusitânia e a Galécia. Jorge de Alarcão. Parte 006

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CAPÍTULO 2. A CONQUISTA ROMANA.
1. A GUERRA DOS ROMANOS CONTRA OS CARTAGINESES NA PENÍNSULA IBÉRICA.

Na segunda metade do século terceiro a. C., os Cartagineses, que desde há muito tinham contactos com a Península Ibérica, reforçaram aqui as suas posições. Não podemos dizer que conquistaram a Península
como, mais tarde, os Romanos vieram a fazê-lo. A Hispânia interessava-lhes pelos seus recursos mineiros, como mercado onde podiam colocar os seus produtos e como campo onde recrutavam mercenários para os seus exércitos. Não temos, porém, prova de que os Cartagineses tenham concebido um projeto de verdadeira conquista da Hispânia.
Na segunda metade do século terceiro a. C., os povos que localizámos no mapa da Fig. 2 não eram unidades políticas, mas étnicas ou culturais. A unidade política, pelo menos no Sul e Sudeste da Península, seria, como acabámos de ver, a cidade-estado (ou algo que se aproximava da cidade-estado do Mediterrâneo). Com elas (ou sobretudo com aquelas que se situavam no litoral entre o Tejo e o Ebro) teriam os Cartagineses negociado acordos; com elas terão mantido relações comerciais.
As posições cartaginesas na Península reforçaram-se quando a família dos Barcas adquiriu predomínio em Cartago. Primeiro, com Amílcar Barca; depois, com seu genro Asdrúbal; depois ainda, com Aníbal, Asdrúbal e Magão, filhos de Amílcar.
Cartago ensombrava Roma. Daí as três Guerras Púnicas entre as duas potências: a primeira (264-241 a. C.) travou-se pela posse da Sicília, que os Cartagineses perderam; a segunda (218-201 a. C.) conduziu à expulsão dos Cartagineses da Península Ibérica; a terceira (149-146 a. C.) levou à destruição de Cartago.
Em 226 a. C., os Romanos e Asdrúbal (genro de Amílcar) celebraram um acordo mediante o qual os Cartagineses se comprometeram a não ultrapassar o Ebro; mas, ao mesmo tempo, a não atacarem Sagunto, que ficava a sul do rio.
A violação da segunda cláusula levou os saguntinos a solicitarem a intervenção de Roma. Em 218 a. C., os Romanos, respondendo ao apelo (ou tomando este como pretexto), desembarcaram em Ampúrias e deram início à Segunda Guerra Púnica. Cnaeus Cornelius Scipio comandava as tropas romanas.
O Senado de Roma havia designado Publius Cornelius Scipio e seu irmão Cnaeus para conduzirem o ataque. No decurso da viagem, feita por mar, da Itália para a Hispânia, e quando se encontravam em Marselha, os Cipiões tiveram conhecimento de que Aníbal Barca, partindo da Hispânia, tinha atravessado os Pirenéus e, pelos Alpes, ia a caminho de Itália. Publius Cornelius Scipio voltou para trás, mas Cnaeus continuou viagem até Ampúrias. Depois da batalha de Trébia, travada na Itália entre as forças de Aníbal e as legiões romanas, Publius Cornelius Scipio veio, ainda em 217 a. C., reunir-se ao irmão.
Em 212 a. C., Cnaeus estava em Urso (Osuna) e Publius, em Castulo (na província de Jaén). Ambos morreram em combates com Asdrúbal Barca.
Em 210 a. C., Publius Cornelius Scipio, filho e homónimo do anterior, chegou à Hispânia e em 209 a. C. atacou e tomou Carthago Nova. Esta cidade era a principal posição militar dos Cartagineses na Península. Ao mesmo tempo, era porto comercial ainda que sem a importância de Cádis.
No atual território português ficava Portus Hannibalis. Talvez este fosse também base naval cartaginesa. Infelizmente, a localização de Portus Hannibalis permanece problema sem solução. A única referência que se lhe conhece é a de Mela, terceiro, 1, 7 e não é seguro que este localize Portus Hannibalis em Portimão (ALARCÃO, 2005d: 297-300).
Apiano, Ib., 20, diz que Magão se encontrava em Carthago Nova quando Publius Cornelius Scipio atacou a cidade. Não confere esta indicação nem com a de Lívio nem com a de Políbio. O primeiro diz que Magão se encontrava na área de Castulo, Asdrúbal, filho de Amílcar, perto do rio Ebro e de Sagunto, e um outro Asdrúbal, filho de Giscão, usque ad Oceanum et Gades (Lívio, 26, 20). Políbio, 10, 7, 6, por seu lado, escreveu que Magão se achava no território dos Cónios, Asdrúbal na Carpetânia e um outro Asdrúbal, filho de Giscão, na foz de um rio na Lusitânia. Talvez Lívio e Políbio se refiram a diferentes momentos do ano de 210 a. C. ou do inverno de 210-209 momentos, aliás, anteriores ao ataque a Carthago Nova.
Os editores e comentadores de Políbio têm considerado que o rio da Lusitânia era o Tejo. Parece difícil (ou mesmo impossível) admiti-lo: o Tejo (Tagus) era um rio muito conhecido e nomeado e Políbio não deixaria de o indicar expressamente se Asdrúbal, filho de Giscão, se encontrasse na foz do Tejo.
Devemos supor, por isso, que este Asdrúbal se encontrava na foz de um outro rio cujo nome Políbio não conhecia (ou cujo nome não julgou útil indicar por se tratar de rio menor que os seus potenciais leitores desconheceriam).
A localização dos três exércitos cartagineses aquando do ataque de Publius Cornelius Scipio a Carthago Nova suscita, pois, sérias dúvidas. Seja como for, a perda da cidade de Carthago Nova representou um sério revés para os Cartagineses, até pelo arsenal bélico que aí estava concentrado.
Depois da tomada de Carthago Nova, Publius Cornelius Scipio fez campanha na área do Guadalquivir.
Aí venceu em Ilipa (Alcalá del Rio) e tomou a cidade de Cádis (ou esta se lhe rendeu).

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