A Lusitânia e a Galécia. Jorge de Alarcão. Parte 005

A Lusitânia e a Galécia. Jorge de Alarcão. Parte 005

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CAPÍTULO 1.
6. A ORGANIZAÇÃO POLÍTICA DA ÁREA TÚRDULA.

Na área que definimos como túrdula, os Romanos terão encontrado uma organização sóciopolítica já próxima do regime da cidade-estado característica do Mediterrâneo antigo.
É óbvia essa organização, na Península Ibérica, em toda a faixa litoral dos Pirenéus até à foz do Guadalquivir. Algumas dessas cidades eram fundações coloniais gregas ou fenícias. Assim, por exemplo, Ampúrias ou Cádis. Foi em Ampúrias que os Romanos desembarcaram quando deram início à Segunda Guerra Púnica — respondendo, aliás, a um pedido de intervenção de uma outra cidade-estado, a de Sagunto. Quanto a Cádis, tinha-se tornado um centro populacional e económico de primordial importância; rendida aos Romanos, viria a prestar-lhes inestimável ajuda, quer pela sua frota, quer pelas informações de que dispunha sobre a geografia do litoral atlântico, sobre as correntes marítimas e os ventos desse litoral, sobre os tempos de navegação, sobre os povos e os centros populacionais de todo o Sudoeste e mesmo, certamente, sobre outros povos mais do interior. Em Cádis terão os Romanos encontrado também o que sempre é fundamental para uma potência colonizadora: guias-intérpretes que facilitariam os contactos com os indígenas.
Pouco sabemos sobre o estado de desenvolvimento em que se encontrariam eventuais cidades-estado da região que viria a constituir a província romana da Lusitania.
Uma das maiores cidades-estado, pré-romana, do território atualmente português seria Mértola. A muralha, à qual tem sido atribuída uma cronologia entre meados do século terceiro e inícios do século segundo a. C., isto é, em tempo imediatamente anterior ao da chegada dos Romanos à região, envolve uma área de 65 a 70 hectares (HOURCADE, LOPES e LABARTHE, 2003). Se aceitarmos essa data e se pensarmos que a muralha de Conimbriga, no tempo de Augusto, definia uma área de cerca de 22,5 hectares, e a de Aeminium (Coimbra), no século quarto d. C., uma superfície de pouco mais de 19 hectares, torna-se evidente a enorme dimensão de Mértola naquele tempo. Devemos, porém, ser prudentes quanto à dimensão da cidade e aguardar escavações que nos demonstrem: primeiro, que a muralha, tal como o seu percurso foi definido, data efetivamente, em toda aquela extensão, do século terceiro ou segundo a. C.; e segundo, que toda a área intramuros estava, nessa data, habitada.
Uma cidade com aquela dimensão não se entende senão admitindo um poder político consideravelmente evoluído, fosse ele o de um príncipe (num regime monárquico hereditário ou eletivo) ou o de uns magistrados eleitos pelo povo e com mandato a termo. Conhecem-se moedas cunhadas em Mértola com nomes de magistrados: L. Ap(uleius?) Dec(ianus?) e L. Ac(ilius?) Manl(ianus?) (FARIA, 2006: 224-225). Estas parecem ser, porém, do tempo de Sertório.
Outras cidades-estado seriam Olisipo (Lisboa) e Beuipo (Alcácer do Sal). Importantes, ainda que possivelmente menores do que as anteriores, seriam Balsa (em Tavira, depois deslocada talvez pelos Romanos), Ossonoba (Faro) (ARRUDA, 1997; ARRUDA, BARGÃO e SOUSA, 2005), Beja (cujo nome indígena ignoramos), Scallabis (Santarém). Ainda no Algarve, temos Ipsis (Vila Velha de Alvor) (GAMITO, 1997) e Cilpis (em lugar ainda não esclarecido, mas na baía de Lagos, na foz do rio Arade ou um pouco a montante, mas neste rio). Infelizmente, não conhecemos o perímetro destas cidades nos fins do século terceiro ou nos inícios do segundo a. C., e é quase nulo o que sabemos do seu urbanismo. Também se poderão mencionar, como cidades-estados, Dipo (ALMAGRO-GORBEA, PAU RIPOLLÉS e GERMÁN RODRÍGUEZ, 2009) e Conistorgis (ALMAGRO-GORBEA, 2008), ambas no curso médio do Guadiana.

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