A Lusitânia e a Galécia. Jorge de Alarcão. Parte 004

A Lusitânia e a Galécia. Jorge de Alarcão. Parte 004

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CAPÍTULO 1.
5. O HABITAT E A ORGANIZAÇÃO SOCIAL E POLÍTICA DE GALAICOS E DE LUSITANOS.

A forma de habitat característica de Galaicos e de Lusitanos era o castro (a que os Romanos chamaram castellum).
Povoações alcandoradas no cimo dos montes (ainda que não deva exagerar-se a sua inacessibilidade ou o afastamento de vales), normalmente com circuitos múltiplos de muralhas , os castros contam-se por centenas. Armando Coelho F. da Silva (1986) registou 922 nos distritos de Viana do Castelo, Braga, Porto, Vila Real, Bragança, Aveiro e Viseu. Os números apresentados por Francisco Queiroga (2003) para o norte de Portugal acima do Douro não são significativamente diferentes.
Ana M a . Martín Bravo (1999) registou 93 na Alta Extremadura (Espanha), num período que vai do séc. Oito ao Primeiro a. C. (Ferro I e Ferro II).
Se todos os castros tivessem coexistido, o número de povoados da área galaico-lusitana seria extremamente elevado (talvez mais alto na área dos Galaicos do que na dos Lusitanos). Os castros, porém, não terão sido todos contemporâneos: é provável (ou quase certo) que alguns foram abandonados enquanto outros surgiram. Só se pudéssemos elaborar cartas século por século (ou, pelo menos, uma carta para o Ferro I, do séc. oitavo ao quinto ou quarto a. C., e outra para o Ferro II, do séc. quinto ou quatro ao Primeiro a. C.) poderíamos ter melhor ideia da provável densidade. Infelizmente, os inventários mencionados (e outros que poderíamos aduzir) não determinam, salvo raríssimas exceções, a exata cronologia dos povoados.
Nem poderiam fazê-lo, dado que poucos têm sido objeto de escavações arqueológicas. Quando se propõem cronologias, estas são, na maior parte dos casos, deduzidas de recolhas superficiais e, por isso mesmo, falíveis.
Também raramente os inventários de castros nos elucidam sobre as áreas circunscritas pelas muralhas dos povoados. Mesmo que dispuséssemos desses cálculos, seria difícil avaliar ou sugerir o número de habitantes porque não temos nenhum ratio de população por hectare que nos permita deduzir, da área dos castros, o número dos habitantes. Acresce o facto de, intramuros, se observarem frequentemente afloramentos rochosos que impediriam a implantação de habitações. Poderiam algumas adossar-se às penedias; mas estas reduziriam sempre o espaço disponível para as construções. Por último, quando os castros apresentam múltiplas muralhas (o que é normal), podemos considerar que o recinto interior era habitado, mas fica-nos a dúvida sobre até que ponto as outras muralhas também circunscreviam áreas com casas. Por vezes serviriam apenas para recolher gados ou para instalar algumas atividades artesanais que exigissem fogo, como a metalurgia ou a olaria.
Com tantas dúvidas sobre a dimensão dos castros e da sua população, fica-nos a suspeita de que, na maioria, eram pequenos povoados. Alguns não teriam mais do que 12 ou 20 famílias — e não seriam superiores a muitas aldeias medievais.
A diversidade era, porém, considerável. Para a Alta Extremadura, Ana M a . Martín Bravo (1999: 205) apresentou a seguinte estatística: 62% com 1 a 2 hectares; 15% com 3 ou 4; 6,5% com 5 ou 6; 8,5% com 10 ou mais. Mais de metade dos castros era, pois, de reduzidas dimensões. O de Villavieja (Casas de Castañar), sobre o rio Jerte, tem 40 hectares, mas é verdadeiramente excecional.
Pouca informação temos sobre as áreas dos castros do Norte de Portugal. Na maioria dos casos parecem pequenos como os da Alta Extremadura. O de Sabroso, na sua parte mais elevada, não atinge um hectare. A segunda muralha delimita um recinto de mais 12 459 m 2 onde se observam casas, mas aparentemente mais dispersas. No total, o castro não abrange mais de 2 hectares .
Os dois castros mais conhecidos de Portugal, as citânias de Sanfins (mais de 15 hectares) e de Briteiros (mais de 24 hectares), são fora de comum. Em Sanfins, aquela área representa, aliás, não a dimensão do povoado original (que seria de 7 hectares, englobando as áreas 1 e 2), mas a da citânia na sua máxima extensão. Na Galiza, o castro de San Cibrao de Las tem cerca de 10 hectares (ÁLVAREZ GONZÁLEZ e LÓPEZ GONZÁLEZ, 2016).
Aparentemente, e talvez desde os fins do séc. II a. C., há, no Noroeste, uma tendência para o crescimento de certos povoados. Podemos supor que cresceram concentrando população de outros castros menores que foram abandonados ou cuja população se reduziu. Terão assim emergido verdadeiros lugares centrais que se terão tornado sedes de poder político. Com a emergência desses lugares, os laços de coesão no interior de cada populus ter-se-ão reforçado.
A concentração populacional em alguns castros de grandes dimensões e o suposto abandono de outros povoados menores cuja população se teria transferido para os maiores, mas, por outro lado, a impossibilidade de esses grandes castros sobreviverem sem os recursos alimentares que seriam proporcionados por povoações tuteladas obriga-nos a refletir sobre os processos de equilíbrio que se terão gerado:
ter-se-ão mantido povoados menores que, pela sua localização em terrenos mais férteis, podiam ter uma produção excedentária? Terão sido abandonados sobretudo aqueles cujos territórios de exploração não assegurariam excedentes? Terá havido um processo de intensificação produtiva capaz de garantir melhores rendimentos da atividade agropecuária? A questão liga-se com a debatida cronologia dos castros que têm sido chamados “agrícolas” ou “de baixa altitude” — povoações mais próximas de terrenos aluvionares. Debatida tem sido não só a data de emergência desses castros como a natureza da sua produção: não é óbvio que a tecnologia agrária da época estivesse (ou tenha sido) adaptada à exploração desses terrenos para a cultura cerealífera ou de leguminosas; mas eles podiam constituir lameiros para criação de gado bovino (que, neste caso, teria completado a criação de ovinos e caprinos própria dos castros de maior altitude).
Os grandes castros do Noroeste não se observam na província de Trás-os-Montes. Isso não significa que não possam ter surgido também aqui lugares centrais. O caso de Outeiro Lesenho já mereceu notável reflexão (FONTE, 2015: 104-117): um pequeno povoado com cerca de 4 hectares intramuros (mas os afloramentos rochosos no interior da muralha não permitiam a instalação de casas senão em parte dessa área) apresenta um monumental (e aparentemente desproporcionado) sistema de muralhas. Talvez em Outeiro Lesenho vivesse uma minoria social que controlaria uma população dispersa por outros castros. Um deles pode ter sido o de Carvalhelhos, também reduzido em área (cerca de 2 hectares) e especializado na extração de estanho (FONTE, 2015: 121-135).
Ainda que seja difícil calcular o número de habitantes que haveria em castros como Sanfins ou Briteiros, parece altamente improvável que as respetivas populações possam ter vivido dos recursos proporcionados pelos seus territórios de exploração direta.
Todos os castros tinham os seus territórios de exploração, isto é, seus campos que agricultavam, seus pastos para o gado, suas matas onde iam buscar lenha. Vem sendo norma definir esses territórios como círculos de cerca de 5 km de raio. A distância percorre-se, a pé, numa hora. Para além dessa distância, ficariam tão longe os campos que a sua exploração deixaria de ser rentável: perder-se-ia demasiado tempo nas idas e vindas do (e para o) trabalho.
Voltando a Sanfins e a Briteiros, e apesar das dificuldades de cálculo quanto à população destas citânias, não parece que os seus habitantes pudessem sobreviver da exploração de territórios de cerca de 5 km de raio. Isto deixa-nos pensar nalguma forma de tributação sobre povoados menores cuja produção excedentária garantiria a sobrevivência dos lugares centrais.
Pelo édito do Bierzo (GRAU LOBO e HOYAS, 2001), Augusto concedeu imunidade perpétua aos Paemeiobrigenses, da etnia dos Susarri, e determinou que os Aiobrigaecini cumprissem todas as obrigações perante os Susarri. Paemeiobriga e Aiobriga seriam castros dos Susarri, população dos Ástures. Aparentemente, havia obrigações fiscais de uns castros perante outros, ou de uns castros relativamente a um lugar central. Se bem que o édito dê testemunho de uma situação vigente em 15 a. C., é muito provável que o imperador tenha apenas confirmado ou reformado um sistema indígena anterior.
Não temos ideia de como se exerceria o hipotético poder central. Haveria um chefe? Haveria um conselho de anciãos? As duas coisas não são, aliás, incompatíveis.
As casas circulares dos castros têm normalmente um diâmetro de cerca de 5 metros — que se justifica pela dificuldade (mas não impossibilidade) de cobrir uma área circular superior a essa medida sem um esteio central. Na citânia de Briteiros há, porém, uma casa com o diâmetro excepcional de 11 metros.
A casa tem sido interpretada como lugar de reunião de um conselho de anciãos — e não vemos razão para contestarmos a explicação dada. Haveria, porém, chefes para além destes conselhos?
O próprio urbanismo de Sanfins e de Briteiros, com ruas mais ou menos direitas traçadas com razoável ortogonalidade, deixa crer numa disciplina administrativa que seria garantida por um poder respeitado.
Em muitos castros do Norte de Portugal e da Galiza é óbvio que as casas, umas circulares, outras sobre o quadrado ou retângulo, formam conjuntos delimitados por uma cerca ou muro. A estes conjuntos chamaremos unidades domésticas ou unidades habitacionais. Em cada unidade vivia uma família .
Nalguns castros, como em Sanfins ou Briteiros, as unidades habitacionais são claramente distintas umas das outras; noutros povoados, a distinção entre conjuntos não é tão nítida — e a distribuição das casas afigura-se algo anárquica. É possível que o desarrumo das casas, aparente, por exemplo, nas plantas antigas publicadas de Terroso, seja de algum modo ilusório e derive, pelo menos em parte, do facto de não se terem observado devidamente, nas escavações e nas plantas topográficas, os muros das cercas das unidades habitacionais. É claro, todavia, que em Briteiros e Sanfins há uma arrumação dos conjuntos ao longo de ruas e que esse ordenamento urbanístico não é visível noutros castros.
Pode tratar-se de uma evolução: nos castros mais antigos não haveria o ordenamento urbanístico que se observa nos mais recentes. Em alternativa, podemos pensar que eram mais ordenados os castros maiores, que terão funcionado como lugares centrais. Uma explicação, aliás, não exclui a outra.
A reconstituição de uma unidade doméstica de Sanfins, executada por Armando Coelho e Rui Centeno , torna patente a privacidade da morada. A família tinha garantida, pelos altos muros, a intimidade e o resguardo dos olhares alheios. Foi a arquitetura que criou a privacidade, ou foi o desejo de intimidade que levou ao levantamento da cerca perimetral? Provavelmente, houve uma relação tão estreita entre a forma e o sentimento que não podemos distinguir causa, de efeito.
A casa redonda dos castros, construída de pedra e com cobertura cónica de colmo ou giesta, reproduz a forma tradicional da habitação — que, durante séculos, se havia construído inteiramente com materiais vegetais. Quanto aos edifícios de planta retangular ou quadrada que se encontram em algumas unidades habitacionais castrejas, tem-se dito que surgiram por influência romana.
Algumas casas redondas apresentam um alpendre desenhando como que as patas de um caranguejo.
Trata-se, em cada conjunto, do edifício principal. As construções quadradas ou retangulares podiam servir de currais de gado, ou para guardar palha, lenha, aprestos, ou ainda para armazenar provisões.
Infelizmente, é muito escassa a informação arqueológica sobre os usos que teriam os diversos espaços de uma unidade doméstica. Numa civilização agrária — que, aliás, se basearia talvez mais na criação de gado do que no cultivo das terras, e que, de sobra, procuraria na castanha e na bolota uma fonte importante de alimento — não haveria absoluta diferenciação funcional: alguns filhos da família bem poderiam dormir no palheiro ou até mesmo no curral. O colmeiro de palha ferrã era o leito de quem ainda não tinha descoberto ou adaptado a cama que os Romanos terão introduzido; a secura da palha e o bafo quente dos animais proporcionavam conforto nas agruras de um inverno frio e chuvoso.
Algumas casas redondas apresentam, no interior e no circuito da parede, bancos de pedra. Armando Coelho calculou, em alguns casos, que tais bancos podiam dar assento a mais de 20, a 32 ou a cerca de 50 indivíduos (SILVA, 1986: 268), e, muito justamente, relacionou-os com os banquetes a que Estrabão, III, 3, 7, se refere, falando dos “montanheses” (e por este nome entendia também os Galaicos):
bebem geralmente cerveja, raramente vinho, e o pouco que têm gastam-no rapidamente, banqueteando-se com os parentes. Comem sentados, em lugares construídos contra as paredes, e acomodam-se por idade e respeitabilidade. O jantar circula. Quando começam a beber, os homens põem-se a dançar em círculo ao som da flauta e da trombeta, mas também saltam e põem-se de cócoras, alternando os movimentos.
É óbvio que em nenhuma das unidades habitacionais referidas podiam residir permanentemente tantos indivíduos. Estudos etnográficos ou etno-arqueológicos sugerem o ratio de cerca de 4,5 ou 6 m 2 de área coberta por habitante. Na unidade habitacional da cividade de Âncora cujo banco daria assento a cerca de 50 indivíduos (Fig. 15), a área coberta, somadas todas as peças, não ultrapassa cerca de 60 m 2 e não poderia albergar, de acordo com aquele ratio, mais do que 10 a 13 indivíduos permanentemente residentes.
Estrabão deixa entender que as famílias convidavam parentes — e estes seriam, naturalmente, indivíduos não residentes na unidade habitacional onde o banquete tinha lugar. De que tipo seria, porém, a parentela, ou que relações familiares teriam os convidados com o anfitrião?
Podemos supor que numa unidade doméstica viviam o casal fundador, um ou dois filhos casados e os seus descendentes, num grupo familiar trigeracional. Facilmente alcançaremos aquele número de 10 a 13 residentes. Outros filhos (ou filhas) do casal fundador teriam abandonado a residência paterna para fundarem, no mesmo castro (ou noutro vizinho), outra unidade habitacional, onde viveriam com sua descendência.
Quando o casal fundador daquela unidade habitacional de Âncora organizava um banquete para os todos da família, convidaria esses outros filhos que tinham estabelecido residência própria; e eles viriam com seus descendentes. O casal fundador poderia ainda convidar vizinhos. Assim explicaríamos a existência de um banco que daria assento a um número de convivas muito superior ao dos corresidentes.
Na unidade doméstica da cividade de Âncora, Armando Coelho observou ainda que a casa 1 foi, a certa altura, alargada: uma primitiva casa redonda com átrio foi remodelada, aproveitando paredes anteriores, mas estendendo-se para sudeste.
Na citânia de Sanfins, a composição das unidades domésticas é muito variável: enquanto umas se reduzem a duas casas circulares, outras chegam a apresentar quatro casas redondas e algumas de planta retangular (SILVA, 1986: 46). As unidades mais pequenas poderiam ser as de filhos que supostamente teriam abandonado a casa paterna.
Se o registo arqueológico (combinado com a referência de Estrabão aos banquetes familiares) parece dever levar-nos a admitir a existência de famílias alargadas eventualmente reunindo três gerações na mesma unidade habitacional, mas com outros membros em residências autónomas no mesmo castro, dessas famílias não temos, porém, no Noroeste, na época romana, clara confirmação epigráfica.
Com efeito, nas inscrições funerárias de época romana, os indivíduos são identificados pelo nome pessoal, seguido do nome do pai, acrescentando-se, por vezes, o populus ou civitas ou o lugar de origem. Assim:
Albura, Caturonis f(ilia), c(astello) Letiobri (De Braga, LE ROUX e TRANOY, 1973: 193-195)
Reburrus, Vacisi f(ilius), c(astello) Berensi, Limicus (De Huelva, CIL II 5353)
Ladronus, Dovai f(ilius), Bracarus, c(astello) Durbede (De Garvão, Ourique, IRCP 122)
No primeiro caso indica-se o castro de onde Albura, filha de Caturão, era natural (Letiobris), mas não o populus ou civitas, talvez porque Albura se tinha mudado de um lugar para outro (de Letiobris para Bracara Augusta) mas no interior da mesma civitas.
Nos outros dois casos, indicam-se o populus ou civitas e o castellum porque os indivíduos se haviam mudado para muito longe — para lugares onde a simples menção do castellum seria insuficiente. Em Huelva, o castellum Berense seria desconhecido, mas a situação dos Limici não seria ignorada. Em Garvão seria desconhecido o castellum Durbedis, mas bem conhecida a cidade de Bracara Augusta.
Mesmo que estes indivíduos tivessem estado integrados, nos seus lugares de origem, em famílias alargadas, compreende-se facilmente, nestes casos, a sua omissão: mudando-se para lugares distantes dos de origem, teriam perdido as relações com seus familiares.
Os três exemplos dados de inscrições funerárias com menção dos castella de origem poderiam ser acrescentados (GARCÍA QUINTELA, 2002).
Talvez o único testemunho epigráfico de família alargada, no Noroeste, e de época romana, seja o de uma inscrição em verga de porta na citânia de Briteiros: Coroneri Camali domus (CARDOZO, 1965).
Não nos parece que a tradução possa ser: “casa (=residência) de Coronero, filho de Camalo”; mais correto nos parece o entendimento “[esta residência] é de Coronero, da família de Camalo” — estando omitido, por óbvio, o que metemos entre [ ]. Com efeito, a expressão latina domus não significa necessariamente “casa” no sentido de morada ou residência. Pode indicar uma origem, seja esta, família, tribo, etnia ou lugar (SALLER, 1984; DERKS, 2009). Assim, surge-nos domo Sergia para um cidadão de Scallabis inscrito naquela tribo (MAYER, 1987), ou d(omo) c(iuitate) Aravorum (EDMONDSON, 2004: 351) ou domo August(is) Taurinis (ALFÖLDY, 2002a: 88) para indivíduos naturais de Marialva (Meda) ou de Turim.
Não nos parece que a falta de testemunhos epigráficos de famílias alargadas, no Noroeste e na época romana, se possa explicar facilmente por efeito de novos hábitos adquiridos nesta época. Com efeito, no território que anteriormente definimos como próprio dos Lusitani existem alguns testemunhos epigráficos de famílias mais abrangentes que a família nuclear, e são muitos os que se têm recolhido na área dos Vettones. Ora esses testemunhos são de época em que Lusitani e Vettones se achavam romanizados.
Em Alcains (Fundão) recolheu-se uma ara na qual se lê: Asidiae, gentilitas Polturiciorum, ex voto Polturi(i), Caenonis (filii), a(nimo) l(ibens) s(olvit), “A Asídia, a gentilitas dos Polturícios cumpriu de boa vontade a promessa de Poltúrio, filho de Cenão” (ASSUNÇÃO, ENCARNAÇÃO e GUERRA, 2009).
Do mesmo lugar procede uma outra ara com a seguinte inscrição: Asidiae Polturiceae, L(ucius) Attius Vegetus v(otum) l(ibens) s(olvit), “A Asidia Polturiceia, Lúcio Ácio Végeto cumpriu, de boa vontade, a promessa [feita]”.
Na primeira inscrição, a unidade superior à família nuclear é designada pelo nome de gentilitas. Asídia seria uma divindade que a gentilitas dos Polturícios teria adotado como sua protetora. Na segunda inscrição, não é óbvio que Lúcio Ácio Vegeto integrasse a gentilitas dos Polturícios. Podia ter adorado a divindade protetora da gentilitas sem pertencer a esse grupo familiar. Não podemos, porém, excluir a hipótese de realmente lhe pertencer, ou por consanguinidade, ou por adoção.
No Monte de S. Martinho (Castelo Branco), numa inscrição funerária lê-se: Boutius Pelli f(ilius) h(ic) s(itus) e(st). S(it) t(ibi) t(erra) l(evis). Genti[s] Aesuriorum [f(ecit)], “Búcio, filho de Pélio, está aqui sepultado. Que a terra te seja leve. A gens dos Esúrios [ergueu este monumento]”. É possível restituir genti[litas] em vez de genti[s] (ENCARNAÇÃO, 2003 e 2004).
Nestes casos lusitanos (a que poderíamos juntar outros, todavia não muito numerosos) temos uma gentilitas que se reúne para prestar culto a uma divindade tutelar ou dar sepultura a um dos seus membros.
A gentilitas tem um nome expresso em genitivo do plural: Polturiciorum, Aesuriorum, “dos Polturícios”,dos “Esúrios”.
São muitos os casos em que os genitivos do plural nos aparecem sem que os preceda a palavra gentilitas. Assim:
Aper Acceicum Mauri f(ilius) (CIL II 865, de Irueña, Salamanca), “Aper, filho de Mauro, dos Aceicos Amaenie Vironi f(ilia) Tritecu(um) (ALBERTOS FIRMAT, 1975: 18, de Yecla de Yeltes, Salamanca), “A Aménia, filha de Virono, dos Tritecos” A frequência com que os genitivos do plural nos surgem sem que os preceda a palavra gentilitas tem levado os epigrafistas, arqueólogos e historiadores a preferirem a expressão unidades suprafamiliares para estas unidades superiores à família nuclear: talvez gentilitas não fosse o único substantivo comum usado e estas unidades pudessem também ser designadas por outros nomes, como gens, cognatio ou domus.
O que seriam, porém, essas unidades suprafamiliares? Poderemos considerá-las linhagens?
Distinguem os antropólogos linhagem, de clã.
Quer a linhagem, quer o clã, são grupos de aparentados que se reclamam de um antepassado comum. No clã, o antepassado é uma figura mítica. Na linhagem, o antepassado é uma figura real.
Pode até ter falecido há muito tempo. Os membros de uma linhagem conseguem, porém, reconstituir a árvore genealógica real e, consequentemente, definir as exatas relações de parentesco que têm entre si. Cada um sabe se é filho, neto, bisneto ou tetraneto do antepassado comum e, por isso, se é irmão, primo direito ou primo em segundo, terceiro ou quarto grau de qualquer outro membro da linhagem.
As unidades suprafamiliares têm nomes derivados de um nome pessoal que seria o do antepassado comum. Assim, o nome pessoal Aesurius deu origem ao nome da gentilitas Aesuriorum. Nos casos em que ainda se não encontra atestado por achados epigráficos o antropónimo correspondente, podemos admitir que virá a ser descoberto: frequentemente se acham novas inscrições que vão acrescentando as nossas listas onomásticas.
Se admitirmos que, na época pré-romana, havia, no território dos Galaicos e dos Lusitanos, unidades suprafamiliares, somos confrontados com um problema: por que razão não temos, na Galécia e na época romana, testemunhos epigráficos dessas unidades (excetuado o caso da família de Camalus na citânia de Briteiros) e por que motivo são tão poucos os testemunhos epigráficos na Lusitânia? Não temos resposta para estas incómodas perguntas.
Para a área dos antigos Lusitanos poderíamos admitir que, tendo-se mantido as antigas unidades suprafamiliares de época pré-romana, estas só funcionavam (ou são apenas visíveis) em atos de culto às respetivas divindades tutelares. A inscrição do Monte de São Martinho desmente esta hipótese, porque nela temos uma gens ou gentilitas unida numa cerimónia fúnebre; e numa inscrição de Teixoso (Covilhã) (VASCONCELOS, 1934: 25-28; CARVALHO, 2007: 282) surge-nos uma outra gens ou gentilitas (a dos Maguaci ou Magiaci) em que se inscreve um Silo, Angeiti filius, aparentemente responsável por obra pública que terá pago do seu bolso.


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