A Lusitânia e a Galécia. Jorge de Alarcão. Parte 003

A Lusitânia e a Galécia. Jorge de Alarcão. Parte 003

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CAPÍTULO 1.
4. A DIMENSÃO DOS POPULI GALAICOS E LUSITANOS

Como vimos, Galaicos e Lusitanos constituiriam uma grande etnia, dividida, porém, em dois ramos.
Se havia muito de comum a uns e outros, Galaicos e Lusitanos tinham também as suas diferenças.
Estariam divididos em grupos menores, para os quais adoptamos a designação de populi, “povos”.
Examinaremos agora que povos seriam esses e que dimensão poderiam ter, quer em cômputo populacional, quer em extensão geográfica.
A informação de Estrabão a que anteriormente fizemos referência dá-nos, para esses populi, um número que, não merecendo inteira confiança, não pode, todavia, ser esquecido. Diz o geógrafo que, entre o Tejo e o litoral norte da Galiza, haveria cerca de 30 “etnias”.
Por seu lado, Plínio, 3, 28, escreveu:
O convento Lucense compreende, para além dos Célticos e dos Lemavos, 16 povos pouco
conhecidos e de nomes bárbaros, mas com cerca de 166 000 pessoas livres. Do mesmo modo,
o convento dos Brácaros compreende 24 civitates com 285 000 pessoas livres, das quais, para
além da dos próprios Brácaros, se nomearão sem fastídio as dos Bíbalos, Coelernos, Galaicos,
Equesos, Límicos e Querquernos.
Plínio completou a sua obra na década de 70 d. C. Nesta altura, o Noroeste peninsular estava dividido naqueles dois conventos: o Lucensis, com sede em Lucus Augusti (Lugo), e o Bracarum ou Bracaraugustanus, com capital em Bracara Augusta (Braga).
Os conventus eram vastas circunscrições administrativas, sobretudo para efeitos judiciais, cada um reunindo várias civitates; e estas eram divisões político-administrativas com um governo local próprio.
Plínio usa, como equivalentes, os nomes populi e civitates. Parece-nos que isso tem sua explicação no facto de as civitates, criadas pelos Romanos como unidades político-administrativas, se terem baseado em populi indígenas cujos limites terão sido mais ou menos mantidos — a exemplo, aliás, do que se verifica na Gallia (França) e na Britannia (Inglaterra).
Das 24 civitates do conventus Bracarum, Plínio identifica apenas 11 pelos seus nomes; e dos 16 populi do conventus Lucensis, somente 11. Aqui suscita-se-nos uma dúvida: os Célticos estavam divididos em Neri, Praestamarci e Supertamarci (ALARCÃO, 2010a: 11). No cômputo de Plínio cabem estes três populi? Ou o Naturalista tomou os três como um só? Neste caso, em vez de 16 populi, devemos supor 18 no conventus Lucensis? Recorrendo a outras fontes literárias e a fontes epigráficas, podemos recuperar os nomes de outras civitates do conventus Bracarum e de outros populi do conventus Lucensis.
A designação das civitates por etnónimos pré-romanos e não por nomes latinos também nos inclina a pensar que elas coincidiram com anteriores populi. Trata-se, porém, claramente, de uma hipótese; e se não vemos razões com que ela se possa seriamente contestar, também é verdade que não temos outros argumentos, além dos expostos, que solidamente a validem.
Aceitemos, pois, que os populi do conventus Lucensis e as civitates do conventus Bracarum coincidem sensivelmente com os populi pré-romanos da região. Ora, se dividirmos as 166 000 pessoas livres do primeiro conventus pelos 16 populi, obteremos, para cada um, o número médio de 10 375.
Se fizermos idênticas contas para o conventus Bracarum, obteremos 11 875.
Podemos assim propor 10 000 a 12 000 indivíduos por populus — mas este é um número que não devemos acolher sem reservas. Primeiro, porque se trata apenas de média estatística. Segundo, porque temos de perguntar-nos a que época se reportam os números de Plínio e como é que foi feito o censo.
É possível (ou mesmo muito provável) que no Noroeste se tenha feito um recenseamento na época de Augusto; mas ter-se-ão realizado outros até à década de 70 d. C. em que Plínio escreveu. Se admitirmos que o Naturalista utilizou um censo augustano, os números que apresentou podem ser tomados como próximos do que seria a realidade populacional na altura em que o Noroeste se deu como inteiramente pacificado e integrado no império romano. Se, porém, considerarmos que Plínio se pode ter servido de um recenseamento feito na década de 70, temos de interrogar-nos sobre a tendência demográfica regional desde os fins do séc. I a. C. até àquela data de cerca de 70 d. C. A população ter-se-á mantido mais ou menos estável ou terá havido crescimento? E, neste caso, qual terá sido o ritmo do crescimento?
A esta dúvida acresce outra: como terá sido feito o recenseamento?
As poucas fontes de que dispomos sobre o modo como se procedia a um censo da população nos finais do séc. I a. C. ou nos inícios do I d. C. deixam-nos crer que, para os cidadãos romanos, se contavam, em cada família, marido, mulher e filhos in potestate (isto é, sob poder paternal); acrescentavam-se os escravos de que a família era proprietária e os libertos (antigos escravos a quem o dono havia concedido liberdade, mas que se mantinham no âmbito da família) (BARJA DE QUIROGA, 2014).
Não sabemos se, no recenseamento dos que não tinham a cidadania romana (e estes, no Noroeste, seriam quase todos no tempo de Augusto e ainda largamente maioritários na década de 70 d. C.), se adotava o mesmo critério. Temos também dúvidas sobre o que deve entender-se por capita, termo utilizado por Plínio e que traduzimos por “pessoas livres”. Se tomássemos o nome no sentido de responsáveis pelo pagamento das contribuições fiscais, e se considerássemos que tais responsáveis seriamos chefes de família, os números de Plínio corresponderiam, não ao número de indivíduos, mas ao de “fogos” ou famílias. Deveríamos então multiplicar por 4 ou 5, porque, em cada fogo, poderia haver, em média, 4 ou 5 indivíduos. Isso daria um número que nos parece excessivo. Consideraremos, pois, que Plínio fala de indivíduos, tanto mais que parece ser esse o sentido da expressão capita libera em Lívio (BARJA DE QUIROGA, 1999: 348); mas, admitindo que se não contariam os filhos de menor idade, tomaremos os números de Plínio como mínimos. Com tantas dúvidas e incertezas, é hipotético o cálculo de 10 000 a 12 000 indivíduos por populus; mas não cremos que possa encontrar-se número mais razoável ou provável. Este é, aliás, o cálculo a que chegou Sánchez-Palencia (2000: 263), que também estimou entre 10 909 e 11 875 o número de indivíduos por populus.
Quanto à extensão territorial ou área que cada populus poderia ocupar, estamos também reduzidos a conjeturas.
O conventus Bracaraugustanus ocupava aproximadamente 19 750 km 2 ; dividindo a área por 24 civitates, obteremos, para cada uma, cerca de 822 km 2 . O conventus Lucensis tinha, em números redondos, 20 890 km 2 . Cada um dos seus 16 populi ocuparia cerca de 1305 km 2 . São estes os parâmetros que nos parecem razoáveis. Os 822 km 2 de um populus do conventus Bracarum correspondem a um círculo de pouco mais de 16 km de raio: de um extremo ao outro do território de um populus, a distância andaria à volta de 30 km. Os populi seriam pequenos, também em extensão territorial. O conventus Asturum, com cerca de 32 800 km 2 , teria, segundo Plínio, 22 populi — o que dá 1490 km 2 para cada povo. Talvez o carácter montanhoso da área ou, em razão do relevo, a existência de zonas despovoadas, explique uma extensão que é apenas média estatística e, por isso, não inteiramente fiável. Em termos populacionais, o cômputo pliniano de 240 000 indivíduos dá, para cada populus asturiano, cerca de 10 900 habitantes ,o que condiz com a média dos conventus Bracarensis e Lucensis.

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