A Lusitânia e a Galécia. Jorge de Alarcão. Parte 002

A Lusitânia e a Galécia. Jorge de Alarcão. Parte 002

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CAPÍTULO 1.
3. AS ETNIAS E AS ÁREAS CULTURAIS DO OCIDENTE PENINSULAR
Podemos falar de uma grande etnia, a galaico-lusitana, dividida em dois ramos — o dos Lusitani e o dos Callaeci — e contraposta ao que, não podendo definir como etnia, consideraremos uma área cultural, a dos Turduli. Nesta última infiltraram-se, no séc. V a. C., os Celtici. A sudeste, oriente e nordeste dos Lusitani, ficavam as etnias dos Cónios, dos Vetões e dos Vaceus.
3. 1. Lusitanos e Galaicos
A definição de uma área galaico-lusitana foi feita, há muitos anos já, por Jürgen Untermann (1965a), baseando-se na antroponímia indígena (Fig. 3). Os nomes pessoais pré-romanos mantiveram-se durante séculos e podemos conhecê-los através de inscrições de época romana.
Grosso modo, do Noroeste da Península até ao Alto Alentejo e à Extremadura espanhola, mas excluindo as terras litorais abaixo do Douro (ou do Vouga ou do Mondego), encontramos os mesmos antropónimos. Estes podem repetir-se noutras áreas da Hispânia, mas são nestas menos comuns. Do Atlas antroponímico de la Lusitania romana (2003) retiramos a mesma conclusão (se tivermos em conta apenas a antroponímia de origem indígena e excluirmos a de raiz romana).
A tradicional localização dos Lusitanos na serra da Estrela foi contestada, nos finais do séc. XIX, por Martins Sarmento, que então escreveu: “As preocupações literárias, que fariam crer o mais inacessível dos Hermínios habitado pelos nossos antepassados, tem de desvanecer-se perante a realidade dos factos. É possível, e provável, que em ocasiões de grandes perigos, aquele labirinto de precipícios acenasse com um refúgio seguro às populações dos arredores, que lhes conhecessem os escaninhos, mas este refúgio era então um esconderijo, um asilo temporário, que não podia guardar-nos vestígios apreciáveis dos seus fugitivos habitantes” (SARMENTO, 1883: 7).
Este curto texto, se o lermos pensando na data em que foi escrito, é curioso pela novidade e, ao mesmo tempo, pelo respeito pela tradição. Não tendo encontrado castros no interior da serra da Estrela, e apenas alguns nas suas vertentes ocidental e oriental, Martins Sarmento concluiu que os Lusitanos não habitaram a serra; mas não querendo romper inteiramente com a tradição, o autor concedeu que a serra da Estrela pudesse ter sido um refúgio, um “asilo temporário” — e falou dos Lusitanos como “nossos antepassados”.
Apesar da advertência de Martins Sarmento ter sido feita em 1883, a ideia da ligação dos Lusitanos à serra da Estrela manteve-se ainda durante quase um século, e só nas últimas décadas foi o assunto revisto — aliás, com desencontradas opiniões: a nossa proposta de localização dos Lusitanos (ALARCÃO, 2001a) é bem diferente da de Pérez Vilatela (2000).
A língua lusitana, indo-europeia, mas não céltica, conhece-se através de algumas poucas inscrições votivas descobertas em Lamas de Moledo (Castro Daire), Cabeço das Fráguas (Guarda), Arroyo de la Luz (Cáceres) (PRÓSPER, 2002: 41-87) e Arronches (ENCARNAÇÃO et alii, 2008; PRÓSPER e VILLAR, 2009; RIBEIRO, 2016).
As inscrições, gravadas em caracteres latinos quando as respetivas áreas se encontravam já bem dominadas pelos Romanos, conservam a língua indígena. A brevidade dos textos não permite avançar muito no conhecimento da língua; mas admite-se hoje, consensualmente, que não se trata de uma língua céltica. Nem o nome de pré-céltica lhe convém, porque não pode considerar-se como representativa de um estádio anterior ao da língua céltica falada pelos chamados Celtiberos da área do Ebro.
Mesmo sem inscrições a norte do Douro, não parece temerário supor que a língua dos Galaicos do Noroeste era a dos Lusitanos, embora com possível variante dialetal.
A unidade linguística e antroponímica do mundo galaico-lusitano (ou luso-galaico) não exclui uma dualidade que se revela na religião. Esta é um importante fator identitário que contribui para distinguir um nós, dos outros. Ora, na área galaico-lusitana, encontramos abundantemente representadas três divindades, Bandis, Nabia e Reve, que, salvo raríssimas exceções, não ocorrem fora dessa mesma área. Por outro lado, há divindades que só se encontram no Noroeste, contrapostas a outras que só surgem na Beira Interior, no Nordeste alentejano e na Extremadura espanhola.
Se bem que as divindades Bandis, Nabia e Reve só sejam conhecidas através de inscrições da época romana, é óbvio que se trata de cultos de origem pré-romana. Podemos argumentar que o mapa da distribuição traduz a difusão desses cultos na época romana, e que essa difusão pode não corresponder à pré-romana; mas a coincidência do mapa antroponímico galaico-lusitano com a dispersão desses cultos é tal que não nos custa aceitar serem os dois elementos índice de uma grande comunidade étnica.
Para além de Bandis, Nabia e Reve, encontramos, na Beira Interior, no Nordeste alentejano e na Extremadura espanhola, outras divindades: o par Arentia/Arentius, Quangeius e Trebaruna. Estas não se observam no Noroeste, onde, pelo contrário, se atestam Cosus e Crougia. Parece-nos, pois, que podemos falar de um panteão galaico-lusitano com aquelas três divindades comuns, às quais os Lusitanos e os Galaicos acrescentaram divindades específicas.
A unidade e especificidade do mundo galaico-lusitano observa-se ainda no habitat. Antes de tratarmos deste, contraporemos, porém, à grande etnia galaico-lusitana, o mundo dos Túrdulos.
3. 2. Túrdulos
Estrabão, III, 1, 6, falando da Bética, escreveu que os seus habitantes lhe chamavam Turdetânia. Acrescentou que alguns autores mais antigos, designadamente Políbio, distinguiam Túrdulos, de Turdetanos, situando os primeiros a norte dos segundos; e diz ainda que, no seu tempo (isto é, no de Augusto), já não existia nenhuma distinção aparente entre Túrdulos e Turdetanos.
Não é fácil esclarecer que distinção faziam os Antigos entre Turduli e Turdetani (MORET, 2011).
É possível que no séc. III ou II a. C. se chamassem Turdetanos os povos que viviam na bacia do Guadalquivir, e se desse o nome de Túrdulos a outros que viveriam entre a serra Morena e o Guadiana e, a ocidente deste rio, no Algarve, no Baixo Alentejo e na orla marítima entre o Sado e o Douro.
Pompónio Mela, III, 1, 8, menciona no litoral, entre o Douro e o Tejo, os Turduli Veteres, “Túrdulos Velhos” ou “Túrdulos Antigos”, e os Turdulorum oppida, “cidades dos Túrdulos”. Plínio, 4, 113, refere, imediatamente a sul do Douro, os mesmos Turduli Veteres — cuja localização, aliás, se acha epigraficamente confirmada (SILVA, 1983). Noutro passo, 4, 118, Plínio inclui os Turduli qui Bardili, “Túrdulos que são chamados Bardilos”, entre as cidades estipendiárias da Lusitânia. Sendo incerta a localização destes Bardili, é possível que tenham ficado no vale do Sorraia. Ainda o mesmo Plínio, 3, 13, distingue a Baeturia Celtica, da Baeturia Turdula. A primeira ficava na bacia do Ardila e a segunda, imediatamente a oriente. Ptolemeu, II, 5, 2 e 4, inclui Balsa (perto de Tavira), Ossonoba (Faro), Salacia (Alcácer do Sal), Caetobrix ou Caetobriga (Setúbal), Pax Iulia (Beja) e Myrtilis (Mértola) entre as cidades dos Turdetani. Se é certo que o testemunho do geógrafo é muito tardio (séc. II d. C.), é possível que Ptolemeu se tenha servido de fontes bem mais antigas — mas que já não distinguiam Túrdulos de Turdetanos. Se reservássemos o nome de Turdetanos para os povos da bacia do Guadalquivir, classificaríamos como túrdulas aquelas cidades do atual território português que Ptolemeu classifica como turdetanas. As cidades de origem túrdula ou turdetana identificam-se pelos topónimos em -ipo ou -uba/-oba . Estes são comuns na área do Guadalquivir (VILLAR, 1999). No território português temos, porém, Ossonoba (Faro), Beuipo ou Beuippo (depois Salacia, Alcácer do Sal, FARIA, 2009), Olisipo (Lisboa) e Collippo (S. Sebastião do Freixo, no concelho da Batalha). Olisipo e Collippo serão duas das cidades que Mela refere como Turdulorum oppida. Caetobriga, que Ptolemeu inclui na lista das cidades turdetanas, não parece, pela terminação briga (mais própria de horizonte céltico), cidade do mesmo grupo; mas não podemos ignorar que em níveis antigos de Setúbal se recolheram materiais que são comuns em horizontes túrdulos ou turdetanos (MAYET e SILVA, 2005: 64-66). As escavações de Scallabis (Santarém) permitem, pelos materiais recolhidos, incluir a cidade também no horizonte túrdulo.
No Baixo Alentejo e no Algarve, numerosas inscrições funerárias, de época bem recuada (séculos VII a V a. C.), revelam um sistema de escrita a que se dá o nome de “escrita do Sudoeste” (CORREA, 1996). Conhecemos uma placa com um abecedário (CORREA, 1993) (Fig. 7). Parece que alguém (um mestre?) traçou os caracteres que outra mão menos hábil (a de um discípulo?) copiou numa segunda linha. Alguns autores chamam sud-lusitana a esta escrita; outros chamam-lhe tartéssica. Se o nome de sud-lusitana não parece conveniente, o de tartéssica pode ter alguma justificação. Com efeito, este sistema de escrita, mais do que provavelmente derivado do alfabeto fenício, pode ter surgido na área de Cádis e Huelva, isto é, na zona onde se situaria o famoso e mítico reino de Tartesso.
Se esta foi a origem da escrita, é surpreendente a concentração das epígrafes no Baixo Alentejo e no Algarve (Fig. 6) e a sua raridade na área do Guadalquivir — onde, pelo contrário, esperaríamos a maior concentração. Raras são, também, as que se encontram na bacia do médio Guadiana (CORREIA, 1996). Podemos pensar, é certo, que a escrita estaria muito mais difundida na área do Guadalquivir, mas que seria aí usada para fins comerciais, em epístolas, eventualmente em crónicas ou anais, isto é, escrever-se-ia em materiais perecíveis. Parece útil recordar o que Estrabão, III, 1, 6, escreveu, referindo-se aos Turdetanos ou Túrdulos da Bética: “Conhecem a escrita e ainda têm, como testemunho do seu longínquo passado, crónicas históricas, poemas e leis em verso que, segundo dizem, teriam 6000 anos”. Excluída a alusão aos seis milénios, a informação estraboniana é verosímil.
O valor fonético dos caracteres é conhecido (o que não exclui ainda muitas dúvidas) mas não se conseguiu entender a escrita. A língua poderá não ser indo-europeia (ou não está confirmado que o seja).
A hipotética leitura de alguns antropónimos nas lápides funerárias sugere a possibilidade de os povos do Sudoeste peninsular terem adotado alguns nomes pessoais de origem indo-europeia (CORREA,1989; CORREA, 1996: 73; TORRES ORTIZ, 2002: 321-323). Esta eventualidade deve considerar-se com alguma reserva, quer porque a leitura não é segura, quer porque tais nomes não são comuns na antroponímia indígena da região na época romana. É certo, porém, que esses nomes se poderiam ter perdido, em séculos posteriores, na área meridional do nosso território. No séc. V a. C., desaparecem do Baixo Alentejo e do Algarve as lápides funerárias epigrafadas. Não obstante, a escrita ter-se-á mantido em outros suportes ou com outros usos: alguns grafitos sobre cerâmica e as moedas cunhadas em Alcácer do Sal no séc. II a. C. (ou ainda na primeira metade do séc. I a. C.) deixam supor que a escrita e a língua persistiam nessa data, tendo sido a escrita substituída pela latina talvez na primeira metade do séc. I a. C.
O mapa da Fig. 6, onde cartografamos os topónimos em –ipo e –uba e as inscrições em escrita do Sudoeste, parece revelar uma vasta área que nada tem a ver com a galaico-lusitana, até porque não se encontram aí atestadas as divindades do panteão galaico-lusitano. Foi nesta área que se fez sentir a influência, direta ou indireta, dos Fenícios. Consagraremos o apartado seguinte a essa influência, que foi determinante na configuração e evolução da área túrdula.
3. 3. A influência fenícia
A partir dos finais do séc. IX a. C., os Fenícios representaram um estímulo civilizador muito importante na Península Ibérica. As viagens de Fenícios até à Península remontam certamente a época mais recuada, mas só nos séculos IX-VIII a. C. terão surgido as primeiras colónias ou feitorias fenícias peninsulares. Apesar das sínteses que se têm produzido sobre a colonização fenícia no litoral atlântico e sobre a influência que os colonos exerceram sobre as populações indígenas do Sul e Centro de Portugal (ARRUDA, 1999-2000; ARRUDA, 2005), são ainda muitos os problemas que se levantam.
Gadir (Cádis) teria sido, segundo as fontes literárias antigas, a primeira colónia fenícia da Península Ibérica, fundada nos últimos anos do séc. XI a. C. Arqueologicamente, não se confirmam nem a prioridade, nem essa antiguidade de Cádis. A história das origens do povoamento fenício na baía de Cádis continua cheia de incertezas (RUÍZ MATA, 1993), mas um estabelecimento fenício do séc. IX a. C. está arqueologicamente confirmado (GENER BASALLOTE et alii, 2014; ZAMORA LÓPEZ et alii, 2010).
Não é fácil reconstituir o que seria a geografia ou topografia da área por volta do ano 1000 a. C. (Fig. 10).
Por essa razão, e também pelo posterior desenvolvimento da área urbana gaditana, a obtenção de dados arqueológicos torna-se difícil.
As relações dos Fenícios (e, em particular, de Tiro) com a Península Ibérica poderão ter começado por Huelva, onde se terá estabelecido uma colónia no segundo quartel do séc. IX a. C. (PADILLA-MONGE, 2016). Mantém-se a discussão sobre se Huelva seria o lugar central do famoso reino de Tartesso, cujas naves iriam, para ocidente, até aos estuários do Sado e do Tejo. De qualquer forma, o sítio controlaria os recursos mineiros das bacias dos rios Tinto, Odiel e Guadiana.
Nos finais do séc. IX ou nos inícios do VIII a. C., os Fenícios iniciaram, porém, o estabelecimento de colónias ou feitorias em diversos lugares do Sul da Hispânia, desde as imediações de Almeria às de Cádis. Escolheram sempre sítios bem posicionados para poderem servir de portos seguros.
As relações de Fenícios com a Península Ibérica mantiveram-se até ao séc. V a. C. Durante séculos, trouxeram materiais do Próximo-Oriente. As colónias fenícias ocidentais tornaram-se, a certa altura, para além de centros importadores e redistribuidores, também centros de produção. Nem sempre é fácil distinguir os materiais que os Fenícios trouxeram do Oriente, dos que foram fabricados nas colónias ou feitorias do Ocidente. Por isso se adota a designação genérica de orientalizantes para esses materiais.
Deve atribuir-se aos Fenícios a introdução, no Ocidente, de notáveis “invenções”: a cultura da vinha e da oliveira (espécies que existiam, mas não domesticadas, na Península), técnicas de exploração de minérios e de metalurgia, técnicas de produção cerâmica (designadamente o torno de oleiro). A eles se deve a introdução da escrita. Tem-se-lhes atribuído, também, a adoção da planta retangular nas habitações (que anteriormente seriam circulares ou ovais) e o uso do adobe e da taipa.
Data do séc. VII a. C. a primeira feitoria fenícia reconhecida em Portugal: a de Abul (Alcácer do Sal) (MAYET e SILVA, 2000; MAYET e SILVA, 2005). Na mesma data terá sido estabelecido o povoado de Santa Olaia, no estuário do Mondego.
Abul e Santa Olaia são estabelecimentos de diferente natureza.
O que temos em Abul é um edifício sobre o quadrado, com um pátio central descoberto .
A certa altura, o edifício foi reformulado — e, no séc. VI, abandonado. A semelhança arquitetónica de Abul com estabelecimentos do Próximo-Oriente foi já justamente salientada. Abul terá servido de residência a imigrantes vindos da Fenícia ou, diretamente, de qualquer colónia fenícia peninsular. Os espaços que serviam de armazéns deixam supor que se instalou aqui um colono comerciante, importador e redistribuidor, na região, de produtos que recebia de fora. Já então era povoado o sítio da atual
Setúbal; e se os materiais de Alcácer do Sal parecem sugerir um hiato ocupacional entre o Bronze Final e os finais do séc. VII/inícios do VI a. C. (SILVA in ARRUDA, 2005: 109-110), não é de excluir a possibilidade de, em futuras escavações, se confirmar que tal hiato não existiu. De qualquer forma, aquela data de finais do séc. VII/inícios do VI em que o sítio de Alcácer do Sal estava ocupado cai dentro do período de vigência de Abul. Assim, podemos incluir Alcácer do Sal na lista dos mercados onde os colonos abulenses podiam negociar.
Talvez por Abul tenha também entrado o famoso tesouro da Herdade do Gaio (Sines), atribuível aos finais do séc. VII ou aos meados do VI (e de fabrico gaditano?) (NICOLINI, 1990, passim).
Em Santa Olaia não temos só um edifício, mas um pequeno povoado. A natureza e abundância dos materiais arqueológicos aí recolhidos exclui a hipótese de um povoado indígena: é óbvia a presença de imigrantes (ARRUDA, 1999-2000: 227-240). Podemos eventualmente admitir que, em Santa Olaia, houve de início uma feitoria cuja área poderia não ter excedido a de Abul. Os colonos terão atraído indígenas e usado estes como mão-de-obra necessária ao trabalho de processamento de minério. Desde o início (ou desde cedo), Santa Olaia terá funcionado como centro industrial metalúrgico. Ao contrário de Abul, Santa Olaia persistiu até ao séc. IV ou III a. C. (PEREIRA, 2009) e esta persistência é mais facilmente entendível se admitirmos que o sítio evoluiu de uma feitoria para um povoado.
Materiais fenícios importados por Santa Olaia difundiram-se pela região e encontram-se, por exemplo, em Conimbriga (CORREIA, 1993: 248-260).
A colonização fenícia do nosso território não começou, porém, por Abul e Santa Olaia. Como Ana Arruda justamente observou, colonos fenícios já anteriormente se haviam estabelecido em povoados indígenas como Santarém e, talvez, Tavira. Os materiais orientalizantes de Santarém remontam ao séc. VIII ou mesmo aos finais do IX a. C. Os de Tavira foram atribuídos aos fins do VIII ou aos inícios do VII a. C. (PAPPA, 2015). Podendo ser ligeiramente mais tardios, serão pelo menos de meados do VII. A fixação de colonos fenícios em povoados indígenas terá continuado no séc. VII, como atestam materiais de Castro Marim (ARRUDA, 2005).
O caso de Almaraz (Almada) é mais problemático, pois a cronologia (fins do séc. IX ou inícios do VIII?) não é inteiramente segura e a natureza do estabelecimento (feitoria ou povoado indígena?) não está determinada. Os materiais fenícios desta data em Santarém tornam perfeitamente credível, porém, a presença de colonos em Almaraz na transição do séc. IX para o VIII a. C. – assim como em Lisboa (se bem que aqui se atribuam aos fins do séc. VIII ou aos inícios do VII os materiais mais antigos até agora recolhidos, SOUSA, 2015).
Há áreas onde a presença de imigrantes ainda não está atestada para o séc. VII, se bem que pareça possível ou presumível. Referimo-nos ao Barlavento algarvio e ao estuário do rio Mira. Se a hipótese de uma feitoria fenícia no Cerro da Rocha Branca (Silves) não está confirmada (ARRUDA, 1999-2000: 53-56), a presença de imigrantes na baía de Lagos ou na foz do rio Arade afigura-se-nos possível; e o estuário do rio Mira pode ter sido outro ponto de estabelecimento de imigrantes, aos quais atribuiría
mos a origem dos materiais importados que se têm recolhido em numerosos casais da área de Ourique.
A influência orientalizante na área de Castro Verde, onde também se identificaram muitos casais (MAIA e CORREA, 1985; MAIA e MAIA, 1986; ARRUDA, 2001: 273-282), pode ter vindo pelo Guadiana, subindo de Castro Marim até Mértola e seguindo depois pelas ribeiras de Terges e de Cobres.
No Algarve, as múltiplas lápides com escrita do Sudoeste, dispersas por muitos lugares, sugerem um tipo de povoamento semelhante ao das zonas de Ourique e Castro Verde, isto, é, uma população vivendo em casais — pois não temos, nos séculos VII a V a. C., excetuados os casos de Castro Marim e Tavira, provas arqueológicas de povoações relevantes. Os sítios de Ossonoba, Ipsis (Vila Velha de Alvor), Cerro da Rocha Branca (Silves) e Monte Molião (Lagos) não parecem recuar para além do séc. IV a. C. (ARRUDA, 2007). Nesta data, já não havia contactos de Fenícios com o Ocidente. Haveria, sim, contactos com os Cartagineses; e, no Sul da Península, Gadir (Cádis) emergira como o principal centro comercial e industrial da Península a ocidente das Colunas de Hércules. Com Gadir negociavam agora os Gregos; e terá sido por essa via que chegaram ao nosso território, nos séculos V e IV a. C., os vasos gregos que se têm recolhido em Portugal.
Também no Sul é comum, entre os fins do séc. IV e o séc. II a. C., a cerâmica dita de Kuass, fabricada na África do Norte e em Cádis (VILLEDARY Y MARIÑAS, 2000).
O mapa étnico-cultural que traçámos, definindo duas grandes áreas, a dos Galaico-Lusitanos e a dos Túrdulos, não pode ignorar, porém, a presença, no Sudoeste, de um outro elemento: os Célticos.
3. 4. Os Célticos
A mais antiga referência literária aos Celtas ou Célticos do Sudoeste remonta ao séc. V a. C. e a Heródoto, II, 33, 3, que escreveu: “os Kéltoi vivem para além das Colunas de Hércules, vizinhos dos Kunésioi, que são, dos habitantes da Europa, os mais ocidentais”; e, em IV, 49, 3, Heródoto repetiu a informação, embora chamando Kunetes ao povo a que anteriormente havia dado nome de Kunésioi.
Talvez estes Kéltoi e estes Kunésioi ou Kunetes se devam identificar, respetivamente, com os Cempsi e com os Cinetes de Avieno.
Este segundo autor escreveu, no séc. IV d. C., um poema com longa descrição das terras litorais da Europa desde Álbion (Grã-Bretanha) até Massalia (Marselha). Deu a esta obra o nome de Ora Maritima (SCHULTEN, 1955 2 ; FERREIRA, 1992 2 ; MANGAS e PLÁCIDO, 1994).
A Ora Maritima poderá ter origem remota num périplo dos finais do séc. VI ou dos inícios do V a. C.
Este texto original, que se perdeu, poderá ter sido reescrito por autor(es) grego(s) e por este(s) remodelado ou alterado. Avieno não terá conhecido o texto original, mas alguma destas hipotéticas versões posteriores, também perdidas; e à versão (ou versões) utilizada(s) terá ainda acrescentado informações recolhidas em muitos outros autores. Schulten, na sua edição da Ora Maritima, tentou reconstituir o que seria esse texto original (o dos fins do séc. VI ou inícios do V a. C.). A sua reconstituição não é hoje aceite, mas a ideia de um périplo muito antigo com alguma versão posterior que terá servido de base a Avieno parece-nos mais sustentável do que a tese, hoje defendida por alguns, de que a Ora Maritima é um texto inteiramente inventado por Avieno. Não podemos ignorar a rapidíssima descrição desde Álbion até ao cabo de S. Vicente e a mais demorada relação dos lugares daí até Marselha. Um autor do séc. IV d. C., hipoteticamente concebendo o seu poema sem o paradigma ou guião de uma obra muito mais antiga, não teria dado ao seu périplo a estrutura que a Ora Maritima apresenta.
No litoral atlântico ocidental, Avieno apenas menciona o cabo Aruio, uma ilha abundante em ervas e consagrada a Saturno (no meio de um estuário), o promontório de Ofiússa, uma baía que então se abria, o cabo Cêmpsico (ou Cepresicum?), a ilha Petânion, um amplo porto e o cabo Cinético.
Se é fácil identificar o cabo Aruio com o Finisterra ou o Ortegal, e o Cinético com o de S. Vicente (que os Antigos não distinguiam claramente da Ponta de Sagres), a identificação das outras referências topográficas é mais duvidosa. O promontório de Ofiússa parece corresponder, porém, ao cabo da Roca, e o Cêmpsico ou Ceprésico, ao cabo Espichel. O estuário onde se situava a ilha abundante em ervas e consagrada a Saturno poderia ser o do Mondego, onde ficava o povoado de Santa Olaia, instalado, como vimos, no séc. VII e abandonado no IV ou III a. C. A ilha Petânion poderia ser a do Pessegueiro e o amplo porto ficaria em Sines ou na foz do rio Mira; mas porque a descrição de Avieno nem sempre é linear ou progressiva (o autor por vezes dá saltos e depois volta atrás), também podemos admitir que o amplo porto ficava no estuário do Tejo (RIBEIRO, 1996).
Seja como for, os lugares citados parecem corresponder a pontos que seriam importantes para navegadores dos séculos VI e V a. C.
O etnónimo Kunésioi, Kunetes ou Cinetes poderia existir nesta época, mas já não seria usado nos fins do séc. III ou nos inícios do II a. C., quando os Romanos iniciaram a conquista da Península Ibérica.
Não surge em nenhum dos autores gregos ou latinos que nos deixaram relato das operações militares romanas. O que podemos discutir é se aquele etnónimo corresponde a verdadeira etnia vivida pelos indígenas, ou é designação que Fenícios ou Gregos (ou os navegadores de Gadir?) criaram mais ou menos arbitrariamente. Podemos também discutir se a área dos Cinetes corresponde, grosso modo, à das lápides epigrafadas do Sul de Portugal (e ao território que Estrabão e Mela designam por Cuneus ou ger Cuneus). Parece-nos possível.
Confinantes com os Cinetes ficavam, segundo Avieno, os Cempsi ou Cempsos. Escreveu o autor: Os Cempsos e os Sefes ocupam elevadas colinas do território de Ofiússa (vv. 195-196). No litoral dos Sefes encontra-se a ilha Petânion e um amplo porto. Depois, contíguas aos Cempsos, ficam as povoações dos Cinetes (vv. 199-201).
O nome de Ofiússa terá sido dado pelos Gregos a um vasto território incertamente definido, mas que abrangeria a parte mais ocidental da Península Ibérica (FERREIRA, 1992 2 ; MANGAS e PLÁCIDO, 1994: 67).
O litoral dos Sefes (que Avieno designa por Sefumum ou Sefunium) poderia incluir os estuários do Tejo e do Sado ou prolongar-se mesmo pela costa alentejana.
Avieno volta a falar dos Cempsos em duas outras passagens da Ora Maritima: Na continuação, a ilha de Cartar e, segundo opinião muito difundida, ocuparam-na os Cempsos; expulsos, depois, por uma batalha com seus vizinhos, dispersaram-se em busca de assentamentos diversos (vv. 255-259).
Em seguida, no lugar em que, terra adentro, uma vasta região se afasta do mar salgado, habita a tribo dos Etmaneus. E daqui, em direcção contrária, até às terras dos Cempsos, estendem-se as terras ricas dos Ileatas (vv. 298-302).
A área da foz do Guadalquivir e da baía de Cádis alterou-se substancialmente ao longo dos séculos.
A nossa Fig. 10 tenta reconstituir o que poderia ser a etnogeografia da região nos meados do I milénio a. C.
A “vasta região que se afasta do mar salgado”, e onde viveriam os Etmaneus, poderia ser o curso inferior do Guadalquivir. A direção contrária seria a do Noroeste. Os Ileatas poderiam ficar na bacia dos rios Tinto e Odiel, ou mesmo na região do rio Chança. Os Cempsos, por seu turno, situar-se-iam na do Ardila.
Esta última foi, na Antiguidade, designada por Baeturia Celtica. Foi bem estudada por Berrocal-Rangel (1988, 1992 e 1994). Se admitirmos que os Celtici desta Baeturia ocuparam também alguns lugares da margem direita do Guadiana, não teremos dificuldade em considerar que os Kéltoi de Heródoto e os Cempsi de Avieno eram vizinhos dos Cinetes.
Parece, pois, aceitável a identificação dos Cempsi de Avieno com os Kéltoi de Heródoto e com os Celtici de posteriores fontes literárias. O ataque dos Cempsi/Celtici a Cartar continua, porém, matéria controversa (FERNÁNDEZ GÖTZ, 2007).
Berrocal-Rangel data do séc. V a. C. a fixação dos Celtici na Betúria. Mas donde terão vindo?
Plínio, 3, 13, escreveu, a propósito deste povo: É evidente pela religião, pela língua e pelos nomes das cidades (que na Bética se distinguem pelos cognomes) que os Célticos, descendentes dos Celtiberos, vieram da Lusitânia.
Plínio refere-se aqui às províncias da Bética e da Lusitânia, tais como se achavam definidas no seu tempo, isto é, por volta de 70 d. C. Ora a Baeturia Celtica estava então integrada na Bética. Podemos admitir que os Celtici vieram da Celtibéria através da Lusitânia? Berrocal-Rangel (1998: 106 e 127) inclina-se para uma procedência da área dos Vaceus, embora reconheça que testemunhos arqueológicos, numismáticos, epigráficos, linguísticos e textuais confirmam relações com a Celtibéria.
Qualquer que tenha sido o contorno da área onde os Celtici inicialmente se estabeleceram, parece incontestável que eles vieram a estender-se (ou veio a estender-se a sua influência) a muitos lugares do Alentejo.
A sua cerâmica estampilhada surge, por exemplo, no santuário de Garvão (Ourique) (BEIRÃO et alii, 1985).
Tudo concorre, pois, para admitirmos uma invasão dos Célticos que, no séc. V a. C., se estabeleceram no Sudoeste peninsular.
Caetano de Melo Beirão e Mário Varela Gomes (1980), notando que esta invasão parece coincidir com o desaparecimento das lápides com escrita do Sudoeste, lançaram a hipótese de estes Célticos terem posto fim à “civilização” testemunhada por essas inscrições.
Aceite por uns, contestada por outros (ARRUDA, GUERRA e FABIÃO, 1995), a hipótese merece ser ponderada. O que nos parece dever ser discutido não é o “facto” de uma chegada dos Célticos ao Sudoeste (e, concretamente, ao Alentejo), mas a natureza e consequências do movimento. Devemos falar de invasão com carácter bélico e seu cortejo de destruições e mortes? Ou de imigração? Terão os Célticos coexistido de forma mais ou menos pacífica com os Túrdulos? Ter-se-ão estabelecido em povoações novas? Ter-se-ão fixado alguns em povoações túrdulas já existentes?
A informação arqueológica de que dispomos não é ainda suficiente para podermos propor uma hipótese razoável.
Ptolemeu, como vimos, classifica como cidades túrdulas ou turdetanas, Balsa, Ossonoba, Myrtilis, Pax Iulia, Salacia e Caetobriga. Como cidades célticas, aponta Laccobriga, Caepiana, Mirobriga, Arcobriga, Meribriga, Arandis, Braetoleum, Catraleucus, Turres Albae. Infelizmente, destas últimas, a única localizável sem dúvidas é Mirobriga (Santiago de Cacém).
A classificação ptolemaica sugere apartamento de Célticos e Túrdulos. Podemos, é certo, desvalorizar a informação de Ptolemeu alegando que o autor escreveu no séc. II d. C. É mais do que duvidoso que, nessa data, se mantivesse tal distinção. Ptolemeu, no entanto, pode ter dado testemunho (ou recordado) uma época bem mais recuada em que o apartamento de Célticos e Túrdulos seria sensível. Se recordarmos o que escreveu Plínio, no séc. I d. C., podemos admitir que então ainda se mantinham, nas cidades célticas da Betúria, língua, religião e costumes próprios.
A favor da coexistência de Célticos e Túrdulos no Sudoeste peninsular podemos aduzir ainda o testemunho de Estrabão, III, 3, 5. Diz o geógrafo, referindo-se ao cabo Nério, que devemos identificar com o Finisterra ou o Touriñan, no extremo noroeste da Galiza:
São os Célticos, porém, que ocupam as terras vizinhas do cabo — e esses são aparentados com os das margens do Guadiana. Diz-se que, tendo participado, ao lado dos Túrdulos, numa expedição militar a esta região, se revoltaram depois de terem transposto o curso do Lima. Na sequência desta revolta, e porque, ao mesmo tempo, perderam o seu chefe, os Célticos teriam ficado na região, dispersando-se por ela. O relato pode suscitar dúvidas. Assim como o mesmo Estrabão fala de uma fixação de Gregos no Noroeste — e esta parece ser história inventada para explicar o nome dos populi a que os Antigos chamavam Helleni e Amphiloci —, a expedição referida por Estrabão terá sido inventada para explicar a presença de Célticos na área dos cabos Finisterra e Touriñan?
A presença de três populi célticos no extremo Noroeste peninsular — Neri, Praestamarci e Supertamarci — está bem atestada. Também a dos Turduli Veteres imediatamente a Sul do Douro, na área de Vila Nova de Gaia, está, como vimos, confirmada. Não podemos, pois, descartar facilmente como fantasista a história de Estrabão. Fica-nos a dúvida sobre a data e o objetivo desta expedição conjunta de Célticos e Túrdulos. Ou acaso estes Túrdulos e Célticos eram mercenários que integraram as tropas de Décimo Júnio Bruto quando este, em 138-137 a. C., alcançou o rio Minho?
3. 5. Os Vetões
Vizinhos dos Lusitanos eram os Vetões (ÁLVAREZ-SANCHÍS, 1999 e 2009; SALINAS DE FRÍAS, 2001; SANABRIA MARCOS, ed., 2009).
Os limites do território dos Vetões podem talvez definir-se observando a distribuição geográfica das toscas esculturas zoomórficas — os verracos ou berrões — que são características desta etnia e, aparentemente, se relacionam com a sua principal atividade económica: a criação de gado.
A cronologia e a função dos berrões continuam, porém, tema de controvérsia (MARTÍN VALLS, 1997).
Se admitirmos que os mais antigos não serão muito anteriores ao câmbio da era, e que muitos deles terão sido esculpidos em época romana, podemos contestar a validade de tomarmos os berrões como critério para a identificação do território dos Vetões como etnia pré-romana. De qualquer forma, parece existir consenso em considerar que a Vetónia pré-romana viria, a ocidente, até ao rio Côa; a sul, seria limitada pela serra de Gredos (Fig. 2). A sudoeste, os escassos berrões da zona de Alcântara não podem considerar-se inequívoca prova da extensão dos Vetões até esta área, dadas as suspeitas que sobre eles recaem (ÁLVAREZ-SANCHÍZ, 1999: 223; MARTÍN BRAVO, 2009: 158).
Os berrões a sul da serra de Gredos obrigam-nos a uma interrogação: desceriam os Vetões até às margens do Tejo? Para Ana M a . Martín Bravo, “na bacia extremenha do Tejo viveram umas gentes cujo registo arqueológico é diferente do dos povos estritamente vetões, e se diferencia também do de outros povos como Carpetanos e Túrdulos”. Porque os berrões da área de Cáceres se situam nos corredores de passagem através da serra de Gredos e na parte oriental daquela bacia do Tejo, poderão corresponder a uma expansão dos Vetões para terras que não seriam suas de origem — expansão que teria ocorrido nos séculos II e I a. C., isto é, em época que precedeu imediatamente a conquista romana definitiva da área, ou mesmo já depois da conquista?
3. 6. Os Cónios
Desde Schulten (1955 2 : 105, com primeira edição em 1922) e Leite de Vasconcelos (1938: 57-60) se tem admitido que os Cónios se devem identificar com os Cinetes de Avieno: ficariam, pois, no Algarve e no Baixo Alentejo.
Não repetiremos aqui os argumentos com que, num trabalho anterior (ALARCÃO, 2001a: 335-338), sustentámos a localização dos Cónios no vale médio do Guadiana. Ao mesmo tempo, sugerimos a identificação da sua principal cidade, Conistorgis, com a actual Medellín. A nossa proposta foi aceite e reforçada por Almagro-Gorbea (2008: 1033-1059) — de quem divergimos apenas por entendermos que o nome Conimbriga não pode constituir prova de que, em tempo antigo, os Cónios abrangeriam uma área muito mais vasta que se estenderia até à bacia do Mondego. O nome de Conimbriga não
parece relacionar-se com os Cónios e terá outra origem (BLONDIN, 1977).
3. 7. Os Vaceus
Os Vaceus ocupavam a área que era limitada, a ocidente, pelos rios Esla e Cea; a norte, o limite correria por Carrión de los Condes até à confluência do Pisuerga e do Arlanza; a oriente, estender-se-ia até Roa de Duero; a sul, o limite é mais difícil de definir, mas o território dos Vaceus incluiria Cuéllar e Coca (Segóvia), Matapozuelos e Tordesillas (Valladolid) e Viso de Vamba (Zamora). Os limites de uma etnia não podem, no entanto, considerar-se fixos e imutáveis ao longo de dois ou três séculos.
Quando os Romanos alcançaram a área, por volta de 150 a. C. (BLANCO GARCÍA, 2015), havia aqui grandes castros de 15 a 20 hectares, razoavelmente distantes uns dos outros. Autónomos, cada um com seu conselho de anciãos ou senado, podiam eventualmente unir suas forças sob o comando de caudilhos circunstanciais (SANZ MINGUEZ e MARTÍN VALLS, 2001).

A Lusitânia e a Galécia. Jorge de Alarcão. Parte 001