A Lusitânia e a Galécia. Jorge de Alarcão. Parte 001

A Lusitânia e a Galécia. Jorge de Alarcão. Parte 001

 

CAPÍTULO 1.
Os Romanos, desembarcando em Ampúrias em 218 a. C., deram início à conquista da Península Ibérica — conquista que terminaria, cerca de dois séculos depois, em 25 a. C., com a anexação das Astúrias e da Cantábria.
Como escreveu Floro, I, 33, a guerra dos Romanos na Península não foi, de início, contra os Hispanos, mas contra os Cartagineses na Hispânia. Cartago, a grande potência que, no Mediterrâneo ocidental, ensombrava os Romanos, tinha tomado posições na Península Ibérica já no séc. IV a. C. e havia consolidado o seu domínio, nas duas décadas que precederam aquela data de 218 a. C., com os notáveis generais da família dos Barcas: Amílcar, Asdrúbal (genro do anterior) e Aníbal (filho de Amílcar).
Na Península, os Cartagineses tinham encontrado riquezas que sustentavam o seu poder económico e mercenários que engrossavam os seus exércitos.
Não sabemos ao certo quando é que os Romanos atravessaram o Guadiana para ocuparem as terras que viriam a ser as da província da Lusitânia. Isso pode ter sucedido, no curso médio do rio, na década de 180 a. C., visto que, em 186 ou 185, C. Calpúrnio e L. Quíncio atacaram então Dipo e Toledo (Lívio, 39, 29, 4). Sobre a passagem do Guadiana para terras do Alentejo e Algarve não temos dados que nos permitam propor uma data.
Em 138-137 a. C., o procônsul Décimo Júnio Bruto, partindo de Olisipo (Lisboa), levou as tropas romanas até ao rio Minho.
Na fachada atlântica peninsular encontraram os Romanos diversos povos e diferentes culturas.
A elaboração de uma carta dos povos com que os Romanos se depararam envolve, como vai ver-se, muitas dificuldades. E o que entendemos, exatamente, por povos ou etnias?
1. A REPRESENTAÇÃO CARTOGRÁFICA QUE OS ANTIGOS TINHAM DA PENÍNSULA IBÉRICA.
Parece útil começar pelo exame da representação cartográfica que os Antigos tinham da Península Ibérica — à qual os Gregos chamaram Ibéria, e os Romanos, Hispânia.
Para entendermos as descrições que os autores antigos fizeram não podemos lê-los tendo à nossa frente um mapa atual: devemos imaginar que representação cartográfica teriam da Península os Gregos e os Romanos.
Infelizmente, os mapas antigos perderam-se.
Teria mapa(s) a Geografia de Artemidoro, escrita na última década do séc. II a. C. São poucas as linhas que desta obra se conservaram — mas as suficientes para demonstrar que, nessa data, o litoral atlântico da Península era conhecido desde as Colunas de Hércules (isto é, desde o estreito de Gibraltar) até à Corunha (GALLAZI et alii, 2008; ALARCÃO, 2010b). Nos meados do séc. I a. C., Júlio César mandou que se fizesse um mapa do mundo então conhecido.
Os trabalhos demoraram décadas e só foram terminados no tempo de Augusto, graças à intervenção de Agripa, genro do imperador. Pouco depois de 12 a. C., o mapa foi gravado em placas de mármore ou pintado sobre estuque, no Pórtico de Vipsânia, em Roma. Agripa escreveu uns Commentarii que explicariam o mapa ou acrescentariam informações que não podiam ser dadas na carta (DILKE, 1985: 41-53; RODDAZ, 1984: 573-591). Perderam-se os mapas e os Commentarii que, todavia, foram utilizados por autores antigos. No que respeita à Hispânia, mapa e Commentarii poderão ter sido concluídos antes de 15 a. C. Plínio, que os utilizou na sua Naturalis Historia, apresenta Segobriga (na Celtibéria) como civitas stipendiaria (em 3, 25) e a cidade era já municipium naquela data (ABASCAL PALAZÓN, 2006: 71).
Perderam-se igualmente os mapas que ilustrariam a Geografia de Ptolemeu (c. 90-c. 168 d. C.).
Os que acompanharam as primeiras edições impressas desta obra, saídas dos prelos de Bolonha, Roma e Ulm nos finais do séc. XV, parecem reproduzir os que terão sido desenhados, nos finais do séc. XIII, por um erudito monge bizantino, Máximo Planudes (DILKE, 1985: 157). Este não terá encontrado nenhuma das cartas ptolemaicas e terá desenhado de novo os mapas, servindo-se das coordenadas geográficas dadas por Ptolemeu. Os mapas de Máximo Planudes, porém, talvez não divergissem muito do que seriam os que Ptolemeu desenhou ou mandou desenhar.
É sobre o mapa ptolemaico que devemos fazer a leitura das descrições geográficas dos autores antigos. Reproduzimos na Fig. 1 a fachada atlântica peninsular.
O extremo sudoeste da Hispânia é representado como uma cunha avançando pelo Atlântico. Estrabão, III, 3, 4, referindo-se ao Promontório Sagrado (que reuniria num só cabo os actuais de Sagres e de S. Vicente), escreveu que “este é o ponto mais ocidental não apenas da Europa, mas também de toda a terra habitada”. E acrescentou: “A terra contígua a este, designam-na em língua latina por Cuneus, querendo assim assinalar o seu formato de uma cunha”. Pompónio Mela, III, 1, 7, também falou de Cuneus ager, “terra Cúnea”, e situou aí as cidades de Myrtilis (Mértola), Balsa (perto de Tavira) e Ossonoba (Faro) — cidades cujos nomes salientámos com a cor vermelha no mapa da Fig 1.
Para os antigos, o Promontório Sagrado não era o limite da fachada ocidental da Península. Porque representavam mal a orientação da costa até às Colunas de Hércules, era no estreito de Gibraltar ou em Cádis que rematavam aquela fachada.
Assim se entende a descrição de Plínio, 4, 113 e 115: Depois [o autor acabou de referir-se ao Douro, ao Vouga e ao Mondego e desceu ao paralelo de Eburobrittium, cidade que ficava nas imediações de Óbidos] entra pelo mar um vasto promontório a que alguns chamam Ártabro, outros Magno e muitos, por causa da cidade [Plínio refere-se a Olisipo], Olisiponense. Aqui termina um dos lados da Hispânia e, contornando o promontório, começa a parte mais avançada.
Distando dele [do Tejo] cento e sessenta milhas, ergue-se o Promontório Sacro, aproximadamente a meio da parte frontal da Hispânia.

Traduzimos por “um dos lados da Hispânia” a expressão Hispaniae latus; mas latus, “lado”, significa aqui, provavelmente, a linha de costa que, correndo num determinado sentido, a certa altura faz um ângulo ou cotovelo e muda de direção. E só admitindo que o autor entendia, por “parte frontal da Hispânia”, a que vai do seu Promontório Olisiponense ao golfo de Cádis podemos explicar que o Naturalista situe o Promontório Sacro aproximadamente a meio. Frons significa também, em latim, testa, parte dianteira, parte mais avançada, parte da frente. Também só aceitando que, para os Antigos, o Cuneus ager não era apenas a área mais imediata ao cabo de S. Vicente, mas uma vasta região triangular que tinha por base o Guadiana, podemos entender que Mela situe nesse ager as cidades de Myrtilis, Balsa e Ossonoba. O vasto promontório de Plínio no qual terminava um dos lados da Hispânia corresponderá à serra de Sintra.
Tinham os Gregos e os Romanos, também, uma ideia dos principais rios e montanhas da fachada atlântica peninsular. Estrabão refere o Guadiana (Ana), o Tejo (Tagus), o Mondego (Munda), o Vouga (Vacua), o Douro (Durius), o Lima (Limia), o Minho (Minius). Quanto às montanhas, é mais difícil dizermos até que ponto os Antigos distinguiam as serras umas das outras e que nomes lhes davam. São conhecidas as referências ao Herminius. Tem-se identificado este com a serra da Estrela; temos algumas dúvidas, porém, sobre se o Herminius se reduzia a esta serra ou era designação abrangente de várias montanhas das Beiras Central e Interior que hoje individualizamos e a que damos diferentes nomes.
Ao nosso intento não interessa prosseguir agora na análise da representação cartográfica que os Antigos tinham da Hispânia. Podemos passar ao mapa étnico, isto é, à identificação dos diversos populi ou ethnê (“povos” ou “etnias”) a que os geógrafos e historiadores gregos e latinos se referiram.

2. AS ETNIAS DOS ANTIGOS: REALIDADES OU INVENÇÕES DOS ROMANOS?
É hoje opinião compartida por muitos arqueólogos e historiadores que os povos ou etnias mencionados pelos Antigos são invenções dos Romanos. Representariam a visão do colonizador, que tentaria pôr alguma ordem e inteligibilidade numa grande variedade de povos, línguas, religiões e costumes.
O “mapa étnico” romano não teria nada a ver (ou pouco teria) com a visão “émica”, isto é, com a maneira como os povos indígenas se representavam a eles mesmos e se relacionavam uns com os outros, ou com os nomes que a eles mesmos se dariam.
A opinião não é infundada: basta pensar nas “etnias” artificiais que os Europeus criaram na África, com fins administrativos úteis aos colonizadores, mas com ignorância das “verdadeiras” etnias que os Africanos a eles mesmos se atribuíam.
Esta comparação dos Romanos do séc. II ou I a. C. com os Europeus colonizadores da Época Moderna justifica uma leitura crítica dos historiadores e geógrafos antigos que nos falam dos povos pré-romanos da Península; não podemos, porém, considerar que tudo quanto escreveram é mau entendimento e falsidade e que essas etnias correspondem a uma invenção dos conquistadores.
O que é, porém, uma etnia?
Os povos têm de si mesmos uma imagem ou representação. Pensam-se como uma comunidade, como um nós, e distinguem-se dos que entendem não serem seus, isto é, do mesmo grupo, da mesma sociedade, da mesma nacionalidade. Há, pois, uma representação interna ou autorrepresentação diferente (ou que pode ser diferente) da que têm os outros que não fazem parte da mesma comunidade e a veem de fora.
Não é fácil definir o que é mais importante para que uma comunidade se sinta a si mesma como um nós e trate quem lhe não pertence como o outro ou os outros. A língua? A religião? Os costumes? A história coletiva?
Deixamos a pergunta agora sem resposta; mas não a esqueceremos e voltaremos ao assunto mais adiante.
As dificuldades de reconstituição de um mapa dos povos pré-romanos peninsulares é bem aparente quando confrontamos os que têm sido produzidos por vários historiadores e arqueólogos. Essas dificuldades ficaram bem expressas num encontro que Martín Almagro-Gorbea e G. Ruíz Zapatero coordenaram em 1992 e cujas atas foram publicadas em Paleoetnología de la Península Ibérica. O encontro marcou, todavia, um avanço notável, pela tentativa de equacionação das fontes literárias com os dados arqueológicos (ou, por outras palavras, pela relacionação das diferentes etnias com a cultura material).
O assunto tem continuado a ser tratado por muitos autores em trabalhos uns mais abrangentes, outros mais limitados. Estamos longe, porém, de certezas ou consensos. Uma das dificuldades resulta da diversidade das fontes literárias, que nem sempre são conciliáveis. Compreendem-se, aliás, as informações nem sempre concordantes ou mesmo contraditórias de autores gregos e latinos porque estes escreveram em diferentes épocas. As etnias não são imutáveis, mas constituem-se historicamente:
vão-se configurando e reconfigurando ao longo dos tempos, por fatores internos ou externos.
Se relermos Estrabão, que escreveu na época de Augusto, vemos que, nomeando e situando geograficamente diversas etnias, declara, todavia, que havia muitas outras cujos nomes não refere por serem pequenas e obscuras. Assim, em III, 3, 5, diz que, na área entre o Tejo e os Ártabros (dá este nome a um povo que ficaria na zona da Corunha), viviam cerca de 30 povos (que não nomeia). Anteriormente, porém, havia situado nessa mesma área (do Tejo aos Ártabros) os Lusitanos e os Galaicos. Para ele, aliás, os Galaicos eram Lusitanos aos quais os Romanos haviam dado esse nome (o de Galaicos) após as campanhas de Décimo Júnio Bruto — o primeiro que levou as tropas romanas até ao rio Minho (138-137 a. C.).
Partindo do texto de Estrabão, e tentando interpretar o que escreveu, diremos que, para o geógrafo de Amásia, havia uma grande etnia (que, aliás, considerava a maior da Hispânia): a dos Lusitani. Depois, os Romanos teriam feito uma divisão e dado um nome diferente a uma parte dos Lusitanos: teriam chamado, a essa parte, Callaeci. Aqui, poderíamos sustentar que a etnia dos Callaeci é uma dessas falsas etnias que os Romanos teriam criado. Como adiante veremos, temos razões, porém, para pensar que os Callaeci, a norte do Douro (ou do Vouga?), se distinguiam, a eles mesmos, dos Lusitani ainda que, sentindo-se como uma grande comunidade, não se dessem, a eles mesmos, o nome de Callaeci. Seria romana a invenção do nome coletivo. mas isso não significa que os Romanos tenham inventado uma vasta comunidade que não se experimentaria a si mesma como um nós.
Para Estrabão, Lusitani e Callaeci seriam etnias maiores que, por sua vez, estariam subdivididas em etnias menores: estas seriam cerca de 30. Não haveria, pois, entre o Tejo e os Ártabros, Lusitanos, Galaicos e mais cerca de 30 etnias; existiriam aquelas duas maiores, que integrariam vários povos menores.
O número de 30 parece reduzido. Os Romanos distinguiam os Callaeci Bracari dos Callaeci Lucenses.
Ora os primeiros compreendiam, segundo Plínio, 24 povos; e os segundos, 16. Se os Lusitani também estavam subdivididos em povos, o número das etnias menores de Lusitani e Callaeci ultrapassaria largamente o de 30.
Os povos em que os Callaeci (Bracari e Lucenses) estariam divididos seriam grupos de pequena dimensão populacional e territorial que nos parecem conformes à vivência que as gentes peninsulares, na época pré-romana, teriam de si mesmas e das suas identidades.
Adotaremos daqui em diante uma distinção entre o que designaremos por etnia e o que chamaremos populus ou povo. Etnia será uma grande comunidade de nós, que integraria várias comunidades de menores dimensões: estas serão os povos.
Como se formaram as etnias e os povos? Estes foram-se constituindo por autodiferenciação a partir de uma etnia que se foi cindindo? Ou, inversamente, vários povos terão reforçado as relações de uns com outros, assim se constituindo etnias?
O próprio processo da conquista romana pode ter ativado esta dinâmica: aqui, vários povos reforçaram solidariedades para melhor resistirem; ali (ou noutro tempo), etnias cindiram-se, eventualmente porque os Romanos podem ter incentivado a desunião para mais facilmente os dominarem.
Relativamente aos Lusitanos, em que medida Viriato, pelas suas capacidades de estratega e pelas suas qualidades morais, conseguiu reunir o que estaria desunido? Em que medida, depois da sua morte, se desuniu de novo o que ele havia congregado?
O problema das etnias pré-romanas é extremamente complexo para nós, historiadores e arqueólogos.
A diversidade étnica e cultural que os Romanos encontraram na Hispânia também lhes terá criado problemas; mas eles tinham já a experiência da própria Península Itálica, que era igualmente, do ponto de vista étnico e cultural, muito diversificada. Experiência semelhante tiveram depois na Gália (França) e na Bretanha (Inglaterra).

A Lusitânia e a Galécia. Jorge de Alarcão. Parte 001