A Lusitânia e a Galécia. Jorge de Alarcão. Parte 008

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CAPÍTULO 3. NOVOS CONFRONTOS DE ROMANOS E LUSITANOS.

Depois destes episódios, não encontramos nos autores antigos, gregos ou latinos, e até 155 a. C., notícias circunstanciadas sobre combates de romanos contra lusitanos. Há apenas lacónicas referênciasa triunfos romanos em 181, 178-176 e 167 a. C., mas não sabemos onde, exactamente, se travaram as batalhas em que os lusitanos terão sido derrotados; e também não sabemos se, nesse período, os lusitanos terão obtido algumas vitórias que contrabalançassem as derrotas.
Em 155 ou 154 a. C., lusitanos e vetões, comandados por Punicus, derrotaram o pretor Manius Manilius e avançaram até ao Oceano.
Para os Antigos, Oceano era o Atlântico, isto é, o mar para ocidente das Colunas de Hércules; daqui para oriente, o mar era o Mediterrâneo. O mesmo Apiano diz, porém, que os lusitanos atacaram os Blastofenícios — e estes ficariam na Bastetânia.
Apiano, Ib., 57, fala, relativamente ao ano de 153 a. C., de um grupo de lusitanos “da margem oposta do Tejo” que, sob o comando de Kaukainos (ou Caucenus), atacou os Cónios (que eram aliados dos romanos) e lhes tomou Conistorgis. Ainda que se nos suscitem dúvidas sobre se a “margem oposta” era a esquerda ou a direita, parece melhor interpretação tomar os lusitanos de Kaukainos como provenientes da margem direita do Tejo, fosse da Extremadura espanhola, fosse da nossa Beira Baixa.
Conistorgis, como vimos no capítulo anterior, parece dever identificar-se com Medellín, sobre o Guadiana (Fig. 16). Os romanos, nos meados do séc. II a. C., dominariam o sul da Península até ao país dos Cónios. Não sabemos se já teriam atravessado o Guadiana para o território atualmente português.
A Turdetânia não estava, porém, ao abrigo de ataques lusitanos. Kaukainos, depois do ataque a Conistorgis, avançou para sul até ao litoral e, cruzando o mar, passou a África e tomou Okile ou Ocilis (Apiano,Ib., 57). Esta cidade deve identificar-se com Zílis (Fig. 16). Uma vez mais, os lusitanos seriam mercenários contratados pelos cartagineses que mantinham o conflito com Massinissa (CHIC GARCÍA, 1980: 22).
Em 152 a. C., o governador da Ulterior, Marcus Atilius, atacou os lusitanos e tomou-lhes a principal povoação, a que Apiano chama Oxthracae. Não sabemos situá-la. Ficava possivelmente junto de algum afluente do Tejo pela margem direita, visto que, depois, Marcus Atilius obteve a rendição de povoações vizinhas, algumas das quais pertenciam aos Vetões.
A Marcus Atilius sucedeu, no governo da Ulterior, Servius Sulpicius Galba (151-150 a. C.). Derrotado pelos lusitanos, veio recolher-se a Carmo (Carmona). Depois, tendo reorganizado as suas forças, avançou de novo para norte e passou o inverno em Conistorgis (Apiano, Ib, 59).
Os lusitanos sofreram então um ataque conjunto de Galba e de Luculo, que era ao tempo governador da Citerior. Vencidos, pediram a paz. Galba, fingindo aceitá-la, e prometendo-lhes terras, mandou que se reunissem em três grupos, longe uns dos outros. Depois, tendo-os obrigado a depor as armas, caiu sobre eles e foi grande a mortandade. Muitos foram feitos prisioneiros e depois vendidos como escravos. Entre os que se salvaram contava-se Viriato. Foi isto no ano de 150 a. C.

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