O Nome da Galiza. José-Martinho Montero Santalha. Parte 001

O Nome da Galiza. José-Martinho Montero Santalha. Parte 001

 

José-Martinho Montero Santalha O nome da Galiza
1. Introdução
O debate sobre Galiza ou Galicia
O debate sobre qual é a forma correcta, na nossa língua, do nome do nosso país tem já vários
decénios de história. As opiniões ao respeito podem classifi car-se em três:
1) Que a forma correcta é Galiza.
2) Que é Galicia.
3) Que ambas as formas, Galiza e Galicia, são “galegas”, portanto correctas e legítimas.
Como se vê, o ponto em que se contrapoem essas três opiniões é unicamente se existe ou não
na sílaba fi nal um -i- (fonologicamente /j/), é dizer, a vogal assilábica (ou, melhor, semivogal, ou, ainda
melhor, semiconsoante) que em fi lologia se conhece como «iode» (em castelhano «yod»).
Para compreender o fundo do debate, será útil, antes de mais, advertir que Galiza é a forma por-
tuguesa, mantida em Portugal desde os inícios da língua escrita (século XIII ) até hoje, enquanto Galicia é
a forma actual castelhana, usual também na fala (portuguesa) mais comum da Galiza desde há tempo.
À vista desta situação, é fácil compreender que a oposição Galiza / Galicia é só um caso particular
do confronto geral entre duas concepções da língua da Galiza e do seu futuro: entre os que defendemos
que deve conservar-se a sua identidade histórica com a língua da área portuguesa, por um lado, e, por
outro, os que pretendem desmembrar a Galiza da área lusófona erigindo a fala galega em idioma inde-
pendente do português 1 .
Uma terceira opção teórica, distinta dessas duas, não pode existir: «galego» e português ou são
a mesma língua ou são línguas diferentes, sem que seja possível um grau intermédio, pois entre ambas
as opções há um salto qualitativo 2 . De acordo com isto, não haveria espaço para a terceira opinião, que
aceita ambas as formas Galiza e Galicia como válidas. Mas aqui entram em jogo outras considerações de
natureza prática, quer de carácter psicológico, quer de índole que poderíamos denominar táctico-estratégica.
Importância do vocábulo
Não resultará ocioso, antes de mais, chamar a atenção sobre a especial importância deste vocá-
bulo para o uso linguístico na Galiza, como de resto tem qualquer outro nome de país no uso linguístico
das suas gentes. Em primeiro lugar, pela sua alta frequência no discurso: exceptuando as palavras básicas
ou vitais do idioma, poucas outras poderão alcançar um nível de ocorrências tão elevado. E, em segundo
lugar, pela conotação afectiva que esse uso encerra: é natural que para os galegos o nome do país se ligue
de algum modo com a imagem íntima que cada um tem da Terra.
O presente trabalho
O presente trabalho pretende defender a primeira das três opiniões antes enumeradas: que Ga-
liza é a forma que deve ser considerada como normativa. E isto por duas razões complementárias:
1) Em primeiro lugar, porque Galiza é a forma genuína da nossa língua, enquanto Galicia é
(como o correspondente gentilício gallego) um castelhanismo introduzido na fala popular galega em
tempos modernos.
2) E, em segundo lugar, porque Galiza é a forma que se emprega no restante âmbito da nossa
língua, cuja unidade é fundamental mantermos.
A exposição que aqui ofereço limita-se ao ponto que é motivo de controvérsia: a existência ou
não de iode (-cia ou -za).
Prescindirei, pois, doutros aspectos que afectam a história do vocábulo mas não o ponto concre-
to do iode. Entre esses pontos encontram-se os seguintes:
– A evolução da pronúncia, dentro já do período romance: apresenta um processo absoluta-
mente regular, partindo de uma pronúncia medieval /ga’lidza/ (representada grafi camente Galiza, como
veremos).
– A história da correspondente forma castelhana, cuja evolução, contrariamente ao que por ve-
zes se diz, não afecta o ponto concreto do iode. O resultado regular em espanhol foi Gallizia (fonolo-
gicamente /ga’ × idzja/), e assim se manteve durante a época medieval; nos fi ns da Idade Média e inícios
da Moderna passou a Galizia / Galicia. Portanto, o espanhol manteve o iode ao longo de toda a história,
desde os inícios (Gallizia) até hoje (Galicia), ao passo que em galego-português, como se verá, a forma
genuína foi sem iode desde o primeiro momento (Galiza). Que em castelhano a forma do topónimo
tenha mudado o -ll- (fonologicamente / × /) para -l- (/l/), ao passo que no gentilício gallego se tenha
conservado o -ll- (/ × /) até hoje, pode dever-se a infl uxo galego-português (fenómeno que não tem nada
de extraordinário: também a forma original castelhana portugalés passou a portugués sob o infl uxo
da nossa língua); mas, se efectivamente esse foi o factor causante, o infl uxo da nossa língua foi apenas parcial, pois não levou a forma original castelhana Gallizia a perder o seu iode como sucedera na galego-
portuguesa. De modo que, haja ou não infl uxo da nossa língua no da actual forma castelhana Galicia,
este facto não afecta o problema do iode, que é o tema em foco.
2. A pré-história do vocábulo
A etimologia
Podemos começar fazendo uma rápida alusão à etimologia (hipotética) do vocábulo. São várias
as conjeturas que se têm apresentado, alguma delas com boa base histórico-fi lológica., mas o étimo exac-
to continua a ser incerto. Pode-se dizer, resumindo, que é seguramente de origem pré-romana, provavel-
mente céltica, relacionada com (Portum) Cale, nome primitivo da desembocadura do rio Douro (donde
procedem não só os nomes de O Porto e Gaia mas também o de Portugal).
A forma primitiva: Callaecia (e callaecus)
A forma mais antiga que podemos documentar do nome é Callaecia, em latim. Aparece por pri-
meira vez em testemunhos que datam dos primeiros anos da nossa era, ou de pouco antes.
Anterior é a aparição do gentilício callaecus, que parece designar primitivamente um povo esta-
belecido no território que agora corresponde ao Sul da Galiza e ao Norte de Portugal, na zona interior.
Mais ou menos pelo mesmo tempo aparecem as correspondentes formas gregas 6 88 46 H (ka-
llaikós) e 5 88 46 (Kallaikía). A habitual relação de antiguidade relativa grego / latim (isto é: a forma
grega como mais antiga que a latina) não parece dar-se neste caso: a realidade parece ser antes a inversa.
Dado que os escritores gregos que nos proporcionam o nome pertencem já à época do domínio romano
na Península, provavelmente transmitiam a informação recolhida pelos romanos nos seus primeiros
contactos com a nossa área; desse modo, as formas mais antigas serão realmente as latinas, e os escritores
gregos simplesmente terão transcrito para grego essas formas latinas, seguindo as tendências habituais
de equivalência fonética (especialmente [grego ai = lat. ae]). De facto, a pronúncia de ambas as denomi-
nações, latina e grega, no século I era quase idêntica, em ambos os casos com 4 sílabas (a saber: /kal-laj-
ki-a/); somente se distinguia na tonicidade silábica: /kallaj’kia/ em grego (com acento tónico na sílaba
ki), /kal’lajkia/ em latim (com acento na sílaba lae, pronunciada aproximadamente /laj/).
A evolução latina: Callaecia > Gall(a)ecia > Gallicia
Dentro ainda da época romana (e portanto muito antes de surgirem as actuais línguas roman-
ces) aconteceram duas modifi cações irregulares, ou inesperadas, de índole fonética na forma primitiva
(Callaecia) do nome: por uma parte, a sonorização da consoante inicial: Call- > Gall-; e, por outra, a
modifi cação da vogal tónica: -lae- > -li-.
1) Callaecia > Gall(a)ecia. A respeito do primeiro desses dois fenómenos (a sonorização da
consoante inicial: C- > G-), não parece, à vista da cronologia dos testemunhos, que se trate, no caso de
Callaecia > Gallaecia, de um mero facto gráfi co, consequência da velha e conhecida confusão latina entre
C e G (por exemplo, entre Caius / Gaius). As transcrições gregas com K- inicial, e não com ?- (= G-),
sugerem que a pronúncia era efectivamente com inicial surda /k/. No entanto, não faltam motivos para a
dúvida 4 . De qualquer modo, logo vemos a consoante inicial oscilar entre C- e G-.
Não é segura a causa desta modifi cação. Talvez se deveu ao infl uxo paronomástico de Gallia, to-
pónimo muito mais conhecido e usual em Roma. De resto, ainda que essa mudança fonética /k/ > /g/ em
posição inicial não se pode considerar comum em latim, tampouco é um fenómeno insólito, pois existem
outros casos parecidos.
2) Gallecia > Gallicia. O segundo fenómeno (passo de Gallaecia –pronunciado regularmente
sem ditongo já a partir de fi nais do século I depois de Cristo: portanto Gallecia– a Gallicia) é tardio, mas
deveu de acontecer ainda dentro da época romana; isto é, não mais tarde do século V .
As causas desta mudança não parece que tenham sido de natureza fonética, mas analógica (ou
seja: por infl uência ou contaminação doutros elementos da língua, de natureza mais sensível aos factores
psicológicos, como são os morfemas e os vocábulos que, na mentalidade dos falantes, se podiam abeirar
com Gallecia, quer por certa aproximação semântica quer por mera similitude formal). Em primeiro
lugar, o factor determinante deveu de ser novamente a infl uência de Gallia e do seu gentilício gallicus;
e, em segundo lugar, também deveu de existir infl uxo da terminação -icia, mais corrente em topónimos
(por exemplo, Poenicia, Cilicia, etc.). Mas é possível que todo o fenómeno tenha sido estimulado por
uma pronúncia hispano-céltica do /e/ breve de Galecia como de timbre fechado (e não aberto, como
seria normal em latim) .
A forma latina Gallicia como ponto de partida
Esta forma Gallicia aparece já em inscrições de época romana tardia, e é a preferentemente em-
pregada por diversos escritores a partir do período que vai entre o fi m da Idade Antiga e os inícios da
Idade Média (séculox V - VI ): é já a que nos apresentam preferentemente os manuscritos que nos transmi-
tiram as obras dos galaicos Idácio, bispo de Chaves (que viveu aproximadamente entre os anos 395-470),
e São Martinho de Dume, bispo de Dume e Braga (falecido em 569).
Gallicia será logo a forma latina normal na alta Idade Média (séculos VI - VIII ) por toda Europa, e
assim a vemos aparecer nos escritos do gaulês São Gregório de Tours (que viveu entre 538-594 aproxi-
madamente), do hispano Santo Isidoro de Sevilha (aprox. 560-636) ou do itálico Paulo Diácono (aprox.
720-792).
Nos documentos latinos hispânicos –e especialmente galaico-leoneses– dos séculos IX - XIII apa-
rece preferentemente a forma Gallecia (ou Galecia, ou mesmo -etia: Galletia ou Galetia). Mas daqui não
deve deduzir-se que a língua comum falada nesses territórios (quer fosse ainda tardo-latina quer já ro-
mance) usasse então o topónimo com /e/ tónico. Pelo contrário, tudo indica que se tratava de uma forma
puramente erudita: os escribas eram evidentemente conscientes de que estavam escrevendo em latim,
e Gallecia era para eles simplesmente a forma que a tradição jurídica considerava como propriamente
latina, independentemente do uso popular.
Em resumo: a evolução da forma latina foi, ainda dentro do período do latim (e portanto antes do período romance) a seguinte: Callaecia (e Callecia) > Gallaecia (e Gallecia) > Gallicia.
Portanto, o ponto de partida para o nome nas línguas romances não é a forma do latim clássico
(que vimos era primitivamente Callaecia e posteriormente Gallaecia) mas a do latim tardio, que era
Gallicia, com /i/ tónico. Desta forma tardo-latina Gallicia procedem regularmente as formas das diversas
línguas romances, as quais apresentam /i/ tónico.
A partir do latim tardio Gallicia são normais tanto o resultado castelhano medieval Gallizia como
o galego-português Galiza. Conseguintemente, carece de fundamento afi rmar, como a miúdo se diz, que
na nossa língua deveríamos esperar *Galeza (e em espanhol *Gallezia ou *Galleza), com /e/ tónico e não
com /i/. O /i/ tónico não é um fenómeno exclusivamente galego-português, nem sequer hispânico, mas
panromânico, justamente porque procede da forma Gallicia, que era comum a todo o latim tardio.

O Nome da Galiza. José-Martinho Montero Santalha. Parte 001